Liga de Heróis Juventude Brasileira – 1ª Temporada (Ep. 1 e 2)

Conto escrito por André Garcia

amdreh@gmail.com

PRÓLOGO

Era uma vez um inferno tropical chamado Brasil, uma terra inóspita onde Mc Créu e Mulher Melancia são a dupla de maior valor para a cultura nacional desde Gilberto Gil e Caetano Veloso. Durante anos, o povo brasileiro consumiu grandes quantidades de alimentos transgênicos sem conhecer seu impacto sobre a saúde humana. Durante o mesmo período, o povo sofreu uma grande exposição às ondas de telefones celulares, micro-ondas e funks “proibidões”.

Hoje, sabe-se que esses fatores foram os responsáveis por alterações nos genes das novas gerações, o que originou jovens dotados de superpoderes. Tais jovens foram acolhidos pelo governo para integrarem uma espécie de força-tarefa dedicada a manter a lei, a ordem e o bem-estar geral, a qual foi batizada de Liga de Heróis Juventude Brasileira, durante uma cerimônia no ano de 2004. O evento contou com um show do Latino, mais conhecido como o novo Chico Buarque, após ter gravado uma versão de “Crazy Train”, do Ozzy Osbourne, com o título “Trem da Orgia”.

EPISÓDIO 1

CAPITÃO SUPERSTAR

Herbert é um jovem normal, exceto seu excepcional empresário. Graças a ele, Herbert ingressou na Liga de Heróis Juventude Brasileira e ganhou a identidade pública de Capitão Superstar. Quais exatamente são suas habilidades especiais não se sabe ao certo – algumas pessoas afirmam que elas, na verdade, não passam de marketing.

— Socorro!!! Socorro!!! — Grita uma garota da janela do terceiro andar de um prédio em chamas.

Eis que, não mais do que de repente, uma bomba de fumaça, como aquelas usadas pelos ninjas dos filmes, explode. Quando a fumaça se dissipa, lá está o Herbert ostentando seu moderno uniforme e sua capa, com os braços abertos e para o alto e os olhos fechados. Alguns segundos depois, ele faz cara de quem acha que há algo errado e abre um dos olhos. Olha para a direita, depois para a esquerda, abre o outro olho e olha ao seu redor.

— Merda. — Ele pega seu telefone celular e disca o número de seu empresário. — Ei, posso saber o que é isso? Como assim, isso o quê? — Responde ele ao empresário do outro lado da linha. — Cadê as câmeras? Cadê o público? Você me mandou para o meio do nada! Assim você me fode, cara! Minha popularidade está despencando, eu não posso perder tempo com coisas assim enquanto o Surfista Bronzeado ganha seu próprio programa de TV! Não, não, não… O que eu preciso é que você trabalhe e consiga coisas que estejam à minha altura! Você sabe melhor que eu que, se continuar assim, vou acabar precisando aceitar o convite para participar da Banheira do Gugu.

— Ei, você aí! Socorro, me tira daqui! — Grita a garota da janela.

— Ei!!! — Grita Herbert em resposta. — Tua mãe não te deu educação, não? Eu tô falando no telefone, será que é pedir muito um pouco de silêncio aqui? Estou tratando de assuntos urgentes! — Então, ele volta a falar ao celular. — Mas, como eu estava te dizendo, se as coisas continuarem assim, a minha carreira vai por água abaixo. Aquele cara que está escrevendo minha biografia, se ele me visse fazendo uma coisa dessas, iria me fazer parecer um…

— Ei! Eu estou falando com você! — Grita novamente a garota.

— Ô, garota chata! Agora sei por que te deixaram sozinha num prédio pegando fogo…

— Surfista Bronzeado, socorro!!!

— O quê?! Você está louca? Eu não sou aquele perdedor, eu sou o Capitão Superstar!

— Eu sei que você não é ele. Ele é gato, sarado, bronzeado e poderoso.

— Pirralha insolente! Eu deveria subir ai e enfiar a mão na sua cara. Como ousa me menosprezar?! Como ousa insinuar que aquele Zé Ruela é melhor que eu?!

— Ele é melhor do que você e do que qualquer um! Nenhuma das minhas amigam gostam de você; nós rimos quando vemos suas fotos com esse uniforme cafona! — Grita ela enquanto começa a arremessar objetos como pentes, escovas e sapatos nele.

— Isso é por que você e suas amigas são um bando de cdf, aposto que elas têm óculos, aparelho e sardas! Você e elas não passam de umas menininhas bobas, feias e… E chatas! — Grita ele, arremessando os objetos de volta para cima. — E, quer saber? Deve ter alguma coisa mais importante que isso para um herói como eu fazer. Alô. — Volta Herbert a falar ao telefone — Eu sei que foi uma semana fraca e que não é todo dia que aparece uma invasão de fãs do Sepultura selvagens. Mas tirar gatos de árvores enquanto os acessos ao meu site despencam? Não sei, cara! Não sei! É por isso que eu preciso de um empresário, você é quem deve me dar uma resposta. Eu só…

Então a garota o interrompe gritando:

— LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA!!!

Herbert para de falar, olha para a garota, mas ela não para e, então, ele começa a falar mais alto ao telefone:

— O QUE EU QUERO DIZER É QUE EU SOU… ALÔ? — Herbert, então, começa a gritar no telefone. — O QUE EU QUERO DIZER É QUE… ALÔ VOCÊ TÁ ME OUVINDO?

— LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA LA!!! — Continua a garota.

— Pra mim chega! Eu não sou heroizinho de terceira para ter que passar por esse tipo de situação. Eu sou um astro, deveria ter uma estátua minha nessa cidade, mas, em vez disso, o que eu ganho? — E ele continua falando, enquanto vai embora.

EPISÓDIO 2

FRIO

João é um jovem normal, exceto sua excepcional capacidade de suportar baixas temperaturas. Graças a ela, João ingressou na Liga de Heróis Juventude Brasileira e ganhou a identidade pública de Frio. A maioria das pessoas acredita que o nome se refere a essa qualidade, mas alguns afirmam que existe outra razão.

João está em seu dia de folga. Ele põe pra tocar o Kiss MTV Unplugged e, quando ouve os primeiros acordes, de “Comin´ Home”, afunda-se preguiçosamente em seu sofá. Ele fica pensativo, olhando para o teto e cantarolando a música quando, então, o telefone toca. No terceiro toque ele finalmente se move e estica o braço para atender:

— Alô.

— João? Aqui é seu empresário. Receio que não tenha boas notícias.

— O que aconteceu? Vou precisar fazer mais festas infantis vestido de Surfista Bronzeado? Por que da última vez eu já te disse que…

— Não é isso. — Interrompe o empresário. — Eu ia ligar para falar sobre sua coleção de discos que foi extraviada no aeroporto, mas acabei de saber de uma coisa e, infelizmente, preciso te dar essa notícia: sua mãe faleceu.

— O quê?! — Grita João, pálido e se levantando num pulo. — Você só pode estar brincando! Isso… Isso… Meu Deus… — Murmura João à beira das lágrimas.

— Eu sei, é difícil aceitar, foi tão de repente…

— Meus discos!!! O The Wall, o Sgt Pepper´s, o News of the World, o Rocket to Russia… O que você está fazendo em relação a isso? Alguma providência precisa ser tomada!

— Eu entrei em contato com o aeroporto e eles já encontraram os discos. Foram mandados acidentalmente para outra cidade. Já estão providenciando o transporte para cá.

João respira fundo e solta o ar lentamente enquanto se senta de volta no sofá.

— Que susto, cara… Os discos sofreram algum dano?

— Acredito que não, fui informado apenas de que foram enviados à cidade errada.

— Isso é ótimo. Que bom, cara… Aliás, qual era a notícia que você tinha pra me dar mesmo?

— Sinto muito em ter que te dar uma notícia como essa, mas sua mãe faleceu.

— Isso foi hoje?

— Sim, algumas horas atrás. Sinto muito.

João fica em silêncio por alguns segundos e abaixa a cabeça lentamente. Por fim, ele diz:

— Isso significa que não vou precisar trabalhar amanhã? Nada de acordar cedo amanhã, então… Tem alguma festa rolando na cidade essa noite?

continua…

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