Liga de Heróis Juventude Brasileira – 1ª Temporada (Ep. 3 e 4)

EPISÓDIO 3

HOMEM CÁLCULO

Marcello é um jovem normal, exceto sua excepcional capacidade de lidar com cálculos e estatísticas. Graças a ela, Marcello ingressou na Liga de Heróis Juventude Brasileira e ganhou a identidade pública de Cálculo. Mas logo precisou mudar por causa de direitos autorais, pois já existia um herói com esse nome – ele tinha o poder de causar cálculos renais nos inimigos. Então Marcello mudou seu nome para Homem Cálculo, após fazer uma pesquisa no Google e constatar que o nome não estava sendo utilizado por outro herói.

É começo de noite e final de expediente num barzinho qualquer. Marcello está com um amigo numa das mesas após um longo dia de trabalho como herói. Eles conversavam casualmente quando uma notícia no jornal da TV chama a atenção de ambos:

“… E hoje a cidade foi salva de um ataque de robôs graças à ajuda do Homem Cálculo, que, com suas habilidades, ajudou os heróis quebrando os algoritmos dos parâmetros de programação dos robôs malignos. Alguns deles foram destruídos no combate e os demais foram reprogramados para assistir a filmes ouvindo discos do Pink Floyd, numa tentativa de descobrir se sincronizam. E, logo após os comerciais, mais novidades sobre a ciclovia que está em fase avançada de construção e cruzará os EUA. Ela que foi construída graças à iniciativa do Tiririca aqui em nossa cidade.”

— Parabéns, cara! — Disse o amigo de Marcello, feliz pela notícia, já que ele nunca comenta sobre coisas desse tipo.

— Hoje não é meu aniversário, ainda faltam 97 dias e 4 horas. — Diz Marcello, voltando-se para seu copo e dando de ombros.

— Estou falando do que vocês fizeram hoje, manezão. Queria ter uma vida de herói como a que vocês têm.

— Eu não fiz nada. — Marcello para, toma um gole de sua bebida e, então, continua. — Só fiz contas. É só o que eu faço. Você deveria dar parabéns aos caras como o Surfista Bronzeado. Foram eles que fizeram isso.

— Você está bem, cara?

— Você está?

— Sim!

— Por quê?

— Por que não estaria?

— Por que estaria?

— Porque é importante que as pessoas sejam otimistas, vivam felizes, ué!

— Então o que você quer dizer é que, quando você não tem motivo algum para ficar feliz, você precisa fingir que está e que não há diferença entre fingir pra si mesmo estar feliz e estar de fato?

— Não. Quer dizer… Deixa pra lá. Mas e quanto a você. Você está bem? Está parecendo pra baixo.

— Estou normal.

— Por quê?

— Por que não tenho motivo nenhum em especial para estar feliz, está tudo normal, eu estou normal.

— Você precisa se animar!

— Ah sim. Preciso fingir que estou feliz, já que não há diferença entre isso e estar realmente feliz de verdade.

— Para com isso! Você entendeu o que eu quis dizer…

— Ok. Me animar? Estamos num planeta com aproximadamente 6 bilhões, 669 milhões, 498 mil e 981 pessoas. Uns 48 milhões, 255 mil e 593 nasceram só esse ano, e olha que ainda estamos em maio. 301 mil e 821 nasceram só hoje. E esse número cresce a cada instante, pois hoje morreram 124 mil e 540, enquanto nasceram 303 mil e 75. Viu só? Quando falei sobre quantos nasceram hoje, a estimativa era 301 mil, e agora já seria 303. Dos 124 mil que morreram hoje, 24 mil foi de fome. Isso dá uma morte por fome a cada 3 ou 4 segundos. O planeta, que tem 4 bilhões, 527 milhões, 642 mil e 531 anos, pode estar vivendo seus últimos séculos, graças a nós, seres humanos. Cinco séculos para um planeta de quatro bilhões de anos é um suspiro. Há pequenas guerras eclodindo em todos os continentes, xenofobia, racismo, homofobia… Há um atrito crescente entre as grandes nações orientais e ocidentais, um aquecimento nuclear mundial e uma guerra no Iraque iniciada por causa da certeza da existência de armas de destruição em massa que não existem. Nessa guerra, aliás, morre uma pessoa a cada… — Marcello toma outro gole da bebida como forma de calar a si mesmo.

— Bom… Mas você precisa se animar. Nada disso vai mudar pelo fato de você ficar assim. Você precisa sair, conhecer pessoas novas, arrumar uma namorada…

— Eu sou filho de pais divorciados. Pesquisas afirmam que aproximadamente 75% dos filhos de pais divorciados têm casamentos malsucedidos. Com um casamento malsucedido, eu vou colocar no mundo um novo filho de pais divorciados fadado à infelicidade.

— Você está exagerando, isso é só uma estatística!

— As coisas não deixam de ser o que são se você fechar os olhos. A maioria das pessoas dizem “mas isso é só uma estatística”, sempre que elas contradizem seus argumentos.

— Cara… Olhe ao seu redor. — Marcello não tirou os olhos de seu copo, continuou passando o dedo pelas gotas de água que se formaram nele. — Tem um monte de garotas aqui, por que não vai lá conversar com alguma delas?

— As mulheres querem homens que cheirem bem e eu sou alérgico a perfume. Querem alguém bombado e eu não malho. Querem alguém sincero e eu não sou um bom mentiroso, e todo mundo sabe que na verdade o que elas querem é um bom mentiroso. Nas projeções estatísticas nacionais, isso me daria umas 17.4% de chances de achar alguém nesse país. Levando em consideração o espaço territorial em que vivo, que é 0,7% do espaço nacional, eu tenho 0,12% de chances de achar alguém compatível comigo nesse bar. Levando em consideração a taxa percentual de lésbicas, frígidas, freiras, mulheres muito feias e mulheres que tenham mau gosto e as problemáticas, que é de…

— Para! Você não pode viver com base só em números. Esquece esses números e dados por um instante! Existe um mundo aqui fora! Tem seis bilhões e sei lá quantas pessoas no mundo, você tem que combinar com ao menos uma delas. Você precisa ter esperança, cara.

— Esperança? Do que adianta fazer uma equação de segundo grau com xis ao quadrado negativo com esperança de que a parábola fique para cima? Isso seria burrice. O que você está dizendo é que burrice é felicidade. É, eu concordo com você, aliás.

— Pô, cara. Você tá muito depressivo.

— 84,7% das pessoas me dizem isso.

— Você contou?

— Sim.

— Cara… Eu vou embora. — Diz o amigo do Marcello, levantando-se. — Me diz, por que pelo menos não tenta achar alguém na internet?

— Você sabe qual a probabilidade de conhecer alguém na internet, sendo que você sequer sabe se a pessoa realmente existe?

O tal amigo do Marcello suspira e, então, se despede e sai do bar. Marcello pega seu MP3 Player (de uma marca japonesa, já que, segundo projeções estatísticas, os MP3 Players chineses apresentam 63,1% a mais de chances de apresentar problemas, além de possuir 42,9% a menos em satisfação do consumidor), põe no modo random e começa a tocar “Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me”, do Smiths, o que tinha 0,82% de chances de acontecer.

EPISÓDIO 4

VOADOR

Victor é um jovem normal, exceto sua excepcional capacidade de voar. Graças a ela, Victor ingressou na Liga de Heróis Juventude Brasileira e ganhou a identidade pública de Voador. Mas se todo herói tem sua criptonita, qual será a dele?

Victor chega à frente de um prédio em chamas com sua bicicleta, a qual ele prende com corrente e cadeado num poste, e, então, uma menina da janela o chama:

— Ei!

Ele olha para os lados procurando de onde a voz tinha vindo.

— Sou eu aqui em cima. — E então o Victor a vê. — Quem é você?

— Eu sou o Voador e vim salvar você.

— Voador? Nunca ouvi falar de você…

— Ah… Você não deve entender tanto de heróis quanto você acha.

— Entendo, sim. Eu conheço o Surfista Bronzeado, o Frio, o Homem Cálculo, o Capitão Marôla, o Marolinha, o Surfista Bronzeado, o The Tetive, o Capitão Superstar, o Thunderbolt, o Ego Man, o Surfista Bronzeado, Bob Boladaum, o Rai Lander, o Gato Preto, o Vidente, o Surfista Bronzeado…

— Você já falou Surfista Bronzeado três vezes!

— É? Não percebi… Mas, de qualquer forma, não conheço você.

— Sou o Voador. Pronto, agora me conhece.

— E qual é seu poder?

— Como assim, qual é meu poder? Eu voo!

— Então voa até aqui e me salva!

— Voar? É… Eu, é… — Ele coça a cabeça desajeitadamente. — Bom… Já tentou as saídas de emergência?

— Claro, foi a primeira coisa que fiz, mas elas estão pegando fogo.

— Já tentou usar os extintores?

— Não tem extintor aqui.

— É… Já tentou… É… Passar correndo por dentro do fogo? De repente você não se queima.

— Isso é perigoso!

— Então, o que você vai fazer?

— Você que é o herói aqui!

— Bom, eu… É… Bem…

— Por que você não voa até aqui e me salva logo?

— Voar?

— Claro, não é esse seu poder?

— Ok, tá bom… — Ele fecha os olhos, respira fundo e diz baixinho para si mesmo. — Ai, meu Deus…

Victor começa a sair do chão bem lentamente e inseguro. Enquanto levita, ele fecha os olhos enquanto lembranças se apossam de sua mente…

Era uma casa em construção onde um grupo de crianças brincava subindo uma escada de madeira até a laje. Victor foi o último a subir, lenta e tremulamente… Ao chegar lá em cima, estava tão contente de ter conseguido que não reparou que as outras crianças desciam pela escada ou pulando em cima de um morro de areia. Quando deu por si, ele reparou que era o único na laje e, quando foi descer, haviam tirado a escada. Apavorado ele se afastou da beira da laje pedindo para que colocassem a escada de volta, coisa que não fizeram, e, então, ele foi até a parte da laje mais próxima da casa da mãe do garoto que morava ali e começou a chamar por ela: “Moça! Moça!”. Todas as crianças explodiram num coro: “Viadinho! Viadinho! Viadinho!”.

Era uma tarde e um grupo de crianças brincava de subir em árvores. Victor sempre corria mais lento que as outras crianças, então resolveu provar para si mesmo sua capacidade de subir em uma árvore. Porém, estando lá em cima, não conseguiu provar para si mesmo sua capacidade de descer, além do mais, ela parecia ter o dobro da altura lá de cima. Ele pediu ajuda às outras crianças, em vão, e resolveu pedir ajuda às pessoas que passavam pela rua: “Moço! Moça!”. Todas as crianças da rua explodiram em coro: “Viadinho! Viadinho! Viadinho!”.

Era uma entediante tarde de sexta-feira quando Victor, já no Ensino Médio, resolveu pular o muro da escola e ir para casa, coisa feita a todo momento pelos outros garotos da escola. Ele passou por um grupo de garotas e garotos da classe que ficava à frente da sua, foi até o muro que possuía buracos e apoios que facilitavam a subida. Enquanto subia, o grupo de alunos prestou atenção nele, coisa que, aliás, aconteceu pela primeira e última vez nos cinco anos que ele passou naquela escola. Uma das garotas falou algo sobre a coragem dele e ele terminou de subir no muro como se tivesse atrás de si uma câmera de Hollywood. Ao atingir o topo, do muro ele olhou para baixo e pensou: “merda!”. Victor olhou para trás e viu que não era somente aquele grupo de alunos que prestava atenção nele – até a partida de futebol havia parado. Ele, então, lentamente passou uma das pernas pelo muro e olhou para todas aquelas pessoas novamente, olhou para baixo, desistiu e desceu do muro. Toda a escola explodiu em coro: “Viadinho! Viadinho! Viadinho!”. No único instante em que levantou os olhos do chão, descobriu que o diretor da escola também tinha se juntado ao coro.

A menina continua sentada na janela aguardando o Victor, que agora está a um metro de distância do chão, com os olhos fechados, cerrando os dentes, com suor escorrendo de seu rosto e a respiração ofegante. Após alguns segundos ele cai em pé no chão, cobre o rosto com as mãos e sai correndo gritando e chorando:

— Calem-se!!! Me deixem em paz!!! Calem se!!!

— Ei, você esqueceu sua bicicleta! — Gritou a menina, mas Victor já estava longe demais para ouvir. — E esqueceu de me salvar também… Tudo bem, não tem problema, não deve ser tão difícil descer daqui.

A garota se pendura na sacada do prédio tateando com a ponta do pé e procurando um lugar onde se apoiar.

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