LIGA DE HERÓIS JUVENTUDE BRASILEIRA – 1ª TEMPORADA (EP. 5 E 6)

Conto escrito por André Garcia

amdreh@gmail.com

EPISÓDIO 5

VIDENTE

Francisco, mais conhecido como Chicão, é um jovem normal, exceto sua excepcional capacidade de conhecer os acontecimentos pouco antes de ocorrerem. Graças a ela, Chicão ingressou na Liga de Heróis Juventude Brasileira e ganhou a identidade pública de Vidente. Para os fãs da Liga, ele possui o poder mais divertido de todos. Mas, por algum motivo, ele parece não se divertir muito.

Chicão está em sua cama, recostado na cabeceira e debaixo de seu cobertor assistindo ao filme O Monstro, de Roberto Benigni. Como sempre, ele não ri das piadas. Não que o filme fosse sem graça, pelo contrário, ele até estava achando bem divertido. O problema é que, para ele, todas as piadas inéditas são repetidas. Para ele, não existem novidades ou surpresas, somente previsibilidade. Chicão só está assistindo ao filme por não ter o que fazer naquele começo de noite de domingo. Num determinado instante, ele estica o braço para o lado, pondo a mão sobre o telefone, que logo começa a tocar e Chicão o atende:

— Alô.

— E aí, cara, é o…

— Já sei.

— E aí, como…

— Estou bem, e você?

— Tudo…

— Eu sei.

— É… O que você…

— Nada.

— Eu…

— Eu sei.

— É… Anunciaram que…

— O Kiss vai tocar no Brasil.

— Isso, eles vão…

— Tocar o Destroyer na íntegra.

— Pô, sempre me pergunto como deve ser ter o seu poder. Nunca ter surpresas, sempre saber o que vai acontecer… Tudo ser previsível.

— Assiste Zorra Total por 10 horas seguidas que vai saber como me sinto.

— Você já assistiu…

— Muito bom. Vale a pena.

— É com aquele ator que fez…

— Ele mesmo.

— E aquele filme que…

— Nem morto.

— É… Conhece uma banda chamada…

— Sim. Muito boa.

— Qual é o me…

— Marquee Moon, embora Adventure também seja um bom disco.

— Eles são melhores que…

— Não, são estilos diferentes, não tem como comparar.

— Em que…

— 1975, 1976 por aí.

— E quando…

— Em 1980, 1981…

— E el…

— Não, os discos solos deles são totalmente desconhecidos.

— Mas…

— Sim. Eles gravaram um disco no começo da década de noventa, mas eu nunca ouvi. De vez enquando eles fazem uma turnê por aí.

— Você…

— Tenho, sim.

— Me…

— Claro, quando você passar aqui pode pegar.

— V…

— De nada.

— E…

— Não, ando sem tempo.

— O…

— Eu sei.

— M…

— Ok.

— B…

— Boa noite pra você também.

E, então, ambos colocam o telefone no gancho.

EPISÓDIO 6

EGOMAN E THUNDERBOLT

Marcos é um jovem normal, exceto sua excepcional capacidade de resistência a sons extremamente agudos. Graças a ela, Marcos ingressou na Liga de Heróis Juventude Brasileira e ganhou uma identidade pública que, estranhamente, não tem a ver com sua audição: Ego Man. Embora isso pareça estranho, todas as pessoas próximas dizem que esse nome é perfeito para ele.

Rafael é um jovem normal, exceto sua excepcional capacidade de gerar e conduzir raios do céu a um alvo específico. Graças a ela, Rafael ingressou na Liga de Heróis Juventude Brasileira e ganhou a identidade pública de Thunderbolt. Por algum motivo, mesmo possuindo tamanho poder, ele não possui muito prestígio dentro da Liga.

Marcos e Rafael estão na cobertura de um pequeno prédio, ocultos pela escuridão da noite sem luar. Marcos respira fundo e solta o ar num assopro. Rafael, minutos depois, boceja. Mais alguns minutos depois, Marcos diz:

— Cara, por que eles colocam alguém como eu para fazer vigílias? Pense bem na quantidade de coisas relevantes que um herói como eu pode fazer e, em vez disso, sou escalado pra fazer vigílias de madrugada.

— Bem, você há de convir que nós não somos nenhum Surfista Bronzeado.

— Você, eu até entendo o motivo de estar aqui, mas eu… Sinceramente, não entendo.

Rafael se vira lentamente, olhando para o Marcos e, então, volta a se virar para frente, com os olhos na rua.

— Que horas são?

— Quase duas da manhã — Responde Rafael.

— Que merda. Sabe, tem gente nessa Liga dedicada a me sabotar.

— Não seja paranoico.

— Paranoico, não, você que é inocente. Ou burro.

— Para quê iriam sabotar você?

— Para promover caras como o Surfista Bronzeado, pô! Esses caras são puro marketing, só aparências. Isso eu também tenho e ainda tenho muitas habilidades… Sou um herói completo! Mas eles têm patrocinadores, empresários… Por exemplo, ninguém sabe que eu e o Surfista Bronzado começamos juntos, que era eu quem o inspirava a ser um herói. Ensinei a ele muito do que ele sabe e agora ele é o Senhor Pica das Galáxias e eu estou aqui fazendo vigílias idiotas com você. Sem ofensas.

— Deixa pra lá… Vamos nos concentrar na vigília

Ambos ficam em silêncio. Rafael suspira. Minutos depois, Marcos respira fundo. Mais alguns minutos depois, Rafael tosse. Marcos, então, diz:

— Puta que pariu, cara…

— O que foi?

— Como assim o que foi? Essas vigílias estão acabando comigo, é a coisa mais chata que alguém como eu pode fazer. — Diz ele, gesticulando. — Quantas ameaças a esse mundo devem estar acontecendo nesse instante enquanto eu estou aqui que nem um babaca?

— Ah, não é tão mau assim. Fica de olho na estrada.

— Não é tão mau assim? Isso é para fracassados!

— Pô, cara, eu faço vigílias há três anos.

— E o que eu tenho a ver com isso?

— É que eu…

— Já fiz muitas vigílias. Mas eu costumava fazer sozinho. Agora me colocam com um Zé Mané qualquer, sem ofensas. Deve ser alguma política de… Compartilhamento de experiência ou algo assim, por que só estão me dando esses trabalhos chatões que ninguém quer fazer…

— Na verdade, isso é um trabalho fundamental, já que…

— Uma vez, durante uma vigília, consegui localizar um sósia do Axl Rose em plena parada gay. Em outra ocasião, derrotei sozinho um exército inteiro de fãs do Iron Maiden. Sem falar daquela vez em que fiz uma vigília do lado de uma casa que não parava de tocar os discos do Los Hermanos. Confesso que foi a missão mais difícil que já tive, mas não desisti, fui até o fim.

— Eu também já fiz várias vigílias. Vigiei um dos setores da época em que estavam buscando rastros dos cristais roubados…

— Aham. Comprei uma guitarra nova, porque estava de saco cheio da antiga. Resolvi comprar uma Les Paul agora. Ultimamente, tenho tocado muitas coisas do Kiss. Os primeiros discos deles são demais. Esses dias eu tava tocando de bobeira quando achei os acordes de “Do You Love Me”!

— É, essa música é boa! Eu gosto de…

— Estou ficando com uma garota… Gatinha, você tem que ver. Gosta de sair. Às vezes ela fica com as amigas dela, eu com os meus… Ela é tranquila. Sou um cara que gosta de ter meu espaço, sabe. Gosto de compartilhar os momentos com a outra pessoa, mas continuar tendo minha vida.

— Entendi. Pra mim a…

— Estou juntando um dinheiro pra ver se eu construo uma casinha. Sabe, uma casa simples, vou construindo aos poucos. Ou, talvez comprar, um carro, sempre quis ter um carro.

— Eu estou juntando pra comprar um…

— Eu, quando criança, já fiz muita merda. Hoje em dia, as crianças não têm mais infância, mas eu tive. Uma vez cortei uma garrafa de dois litros no meio, e coloquei uma vela de cabeça pra baixo acesa dentro dela, de modo que o vento não apagava. Coloquei uma pipa no alto amarrada com a garrafa e a vela, e todo mundo na rua ficou falando que era um disco voador.

— Isso é fisicamente possível?

— Ei! Aquele carro ali… É ele, não é?

— Sim! É o carro dos robôs, vamos chamar a Liga.

— Chamar a Liga? Nós somos a Liga! Vamos ganhar moral lá dentro mostrando que somos capazes de fazer isso nós mesmos.

— Não sei, não…

— Você acha que é capaz de acertar aquele carro?

— Bom, minha pontaria tem melhorado muito nos últimos meses. Tenho praticado horas todos os dias.

— Então, vai lá! Manda ver.

Rafael se levanta, estica os braços para frente e respira fundo. Então, ele grita:

— Cabum!!!

E o céu se ilumina por uma fração de segundo e dele cai um raio que atinge um posto de gasolina há aproximadamente cinquenta metros do tal carro. O posto explode instantaneamente, derrubando as duas casas vizinhas e os postes que ficavam em frente a elas. Ao tombar, os postes partem os fios e o bairro inteiro fica sem energia elétrica. Um dos postes cai sobre um hidrante, que se parte e começa a jorrar água.

— Cara! — Surpreende-se Marcos. — Você está realmente melhorando bastante na pontaria! Já está atingindo a cidade certa e tudo!

— Ah, que é isso… — Diz Rafael encabulado e lisonjeado com o elogio.

— Estou começando a acreditar que algum dia você finalmente vai acertar o alvo.

— Aliás, vamos chamar a Liga.

— Vamos. Ou melhor, você chama. E não se esqueça de deixar bem claro que a culpa foi toda sua.

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