Liga de Heróis Juventude Brasileira – 1ª Temporada (Episódios 7 e 8)

Conto escrito por André Garcia

amdreh@gmail.com

EPISÓDIO 7

THE TETIVE

Daniel é um jovem normal, exceto sua excepcional capacidade de dedução, memória e raciocínio lógico. Graças a ela, Daniel ingressou na Liga de Heróis Juventude Brasileira e ganhou a identidade pública de The Tetive.

Está acontecendo uma pequena festa no apartamento de um amigo do Daniel. Algumas pessoas estão conversando na varanda, enquanto outras estão no sofá relembrando histórias do passado e rindo. No canto da sala, numa cadeira, está ele, afastado das outras pessoas enquanto toca o disco Raw Power, do Stooges, mais especificamente a faixa “Gimme Danger”. A maioria das pessoas, ao se dar conta de que ele ainda está ali, se pergunta por que ele fica ali sozinho e quieto. Mas uma coisa que desconhecem, ou se esquecem, a respeito dos heróis, é que eles não podem desligar seus poderes após o expediente. Outra coisa que não sabem que é, enquanto está sozinho, Daniel costuma falar mentalmente consigo mesmo.

— Que diabos estou fazendo aqui? Perdendo meu tempo seria uma boa resposta. Você sempre acha que vai acontecer alguma coisa, mas a única coisa que acontece é nada. Olha pra eles, estão lembrando histórias dos tempos em que eram crianças e o máximo que você poderia fazer era ficar do lado com um sorriso amarelo dizendo “Caramba” e “Que legal”, fazendo papel de babaca…

Daniel olha ao seu redor.

— Aquela garota é muito bonita, mas eu não conseguiria ficar dois minutos do lado dela sem ter plena convicção de que ela é idiota. Além do mais, ela nem olha para mim ou algo assim. E, mesmo se o fizesse, o quê eu iria dizer? Provavelmente ela acabaria me interpretando mal igual àquela outra garota que até hoje não fala comigo porque acha que eu falei mal do Led Zeppelin. Aliás, eu lembro dela, já vi o perfil dela no perfil de alguém no Orkut. Ela ouve new metal, e eu nunca conseguiria ter um relacionamento de qualquer natureza com alguém que ouve uma coisa dessas. E outra, que se foda, essas garotas estão cada vez mais ocupadas tentando ser bad girls para serem cordiais com as pessoas.

Daniel respira fundo, inclina-se para frente, apoia o cotovelo direito no joelho e o queixo no punho. Vira os olhos para o lado, sem mover a cabeça, olhando para o grupo de amigos que estão na varanda.

— Olha só para eles, estão falando de Guns n’ Roses. Na escola, deveriam ensinar às crianças a ouvirem o Rocks do Aerosmith, assim ninguém iria ouvir Guns. Além disso, acho que só tem homens ali, não estou interessado em ficar rodeado de homens. Pensando bem, acho que já estou… Mas não quero ficar ainda mais. Olha ali uma rodinha de garotas… Ah, esquece, aquela garota está ali com elas. Essa garota antes só não gostava de mim, até que uma noite dei uma cotovelada no nariz dela sem querer. Agora ela me odeia e o jeito como ela nunca fica de frente para cá mostra que com certeza não sou bem-vindo ali. Aliás, ela tem a cara macia, foi como dar uma cotovelada numa almofada.

Daniel se levanta lentamente. Ele não tem relógio, mas julga, pela música em que o disco Raw Power está, que deve ser quase onze da noite. Ele caminha em direção ao sofá, no qual as pessoas antes relembravam histórias do passado e agora falam sobre alguma outra coisa, e vira à direita em direção à cozinha.

— Putz, esse cara está aqui… Ele era meu amigo, ou algo assim. Mas eu… Bem, me interessei por uma garota que ele… Ah, deixa pra lá, o fato é que ele não fala mais comigo. As pessoas que estão com ele são pessoas legais que eu quase não encontro, mas essa situação de olhar para uma pessoa que você conhece, mas precisa fingir que não conhece por que ela não fala com você… Isso é tão constrangedor. Melhor sair daqui antes que alguém me veja.

Daniel volta para a sala, onde ouvem-se os últimos acordes de “Death Trip” e, então, o Raw Power acaba. Alguém vai até o aparelho de som e logo ele volta a tocar, mas dessa vez outro álbum.

— Isso é Strokes? Fala sério. Vou embora.

Daniel começa a andar em direção à porta quando uma garota vai até ele:

— Ei, você é o The Tetive?

— Não. — O que eu ganharia dizendo que sim? Todo mundo sabe que as garotas preferem os outros heróis, como o Surfista Bronzeado.

— Eu sei que é, conheço o uniforme! — Disse ela, sorrindo.

— Se sabe, então não precisava perguntar.

— Me diz, você é mesmo tão inteligente quanto dizem?

— Se eu fosse, não teria saído de casa. A gente se vê por aí. — Diz Daniel, abrindo a porta e saindo, certo de que ninguém iria ao menos se dar conta de que ele havia partido.

EPISÓDIO 8

FRIO

João está em sua casa, relaxando no sofá em seu dia de folga e passando os canais da TV em busca de algo interessante. Ele para num canal onde está passando uma reportagem ao vivo cobrindo um incêndio num prédio onde uma garota está presa. Após alguns segundos estático diante da televisão, o herói se levanta, veste o uniforme o mais rápido que pode e sai de casa correndo.

Chegando ao local, João vai direto ao caminhão dos bombeiros dizendo:

— Quem tá no comando aqui?

— Eu. — Responde um deles.

— Vou entrar lá.

— Não é seguro.

— Não importa.

— Você pode…

— Eu vou entrar lá. Isso não é um pedido, é um aviso.

— Você se responsabiliza?

— Claro. Agora me arrumem um cobertor, um balde de água e um extintor de incêndio. Rápido! Não há tempo a perder.

Um dos bombeiros providencia o que foi pedido e, então, João se apressa em enfiar o cobertor no balde, se cobrir com ele encharcado e correr com o extintor para dentro do prédio enquanto a garota grita por socorro na janela. Os bombeiros observam do caminhão e comentam sobre a coragem e a bravura do herói e como aquilo é um exemplo para todos eles.

A garota ouve um barulho de pancada vindo das chamas. Em seguida ouve um chiado e vê uma fumaça diferente que lentamente vai substituindo o fogo até que ele fica quase apagado.

— Quem é você? — Pergunta a garota surpresa.

— Sou o Frio.

— Você é…

— Não tenho tempo para bater papo. Onde estão eles?

— Eles quem?

— Como assim eles quem? — Frio anda na direção da garota com uma expressão fechada no rosto e apertando o extintor em sua mão direita. — Tá de sacanagem com a minha cara? Acha que estou com humor para brincadeiras? Onde estão os discos?

— Mas na-não tem di-dis-discos aqui… — Responde a menina com medo.

— Aqui não é o 308?

— Não, é o 307.

— Droga, errei o apartamento! — Diz João dando as costas.

— Ei, você não vai me salvar?

— Pode vir atrás de mim, se quiser.

A menina corre atrás dele até o apartamento 308, onde ele arromba a porta, apaga as chamas usando o extintor e logo sai carregando uma grande mala.

— E agora? Vamos para as escadas?

— Não tem condições de apagar as chamas da escadaria e muito menos passar por elas. Só consegui subir por causa do cobertor molhado.

— O que vamos fazer então?

— Eu vi um guindaste desse lado da rua. — Frio vai até janela, acena e grita do lado de fora e logo o guindaste está lá.

— Conseguiu salvar a menina? — Pergunta o bombeiro no guindaste.

— Consegui.

— Me passa ela primeiro.

— Não, primeiro a mala.

— Primeiro a mala? Isso é um absurdo! Você não pode…

— Seu desgraçado, não ouse me dizer o que eu posso e o que não posso. — Explode João furioso. — Sabe o que tem dentro dessa mala? L.A.M.F, do Johnny Thunders! Velvet Underground & Nico do Velvet Underground! Desintegration do The Cure! The Man Machine do Kraftwerk! Live and Dangerous do Thin Lizzy The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars do David Bowie! Raw Power do Iggy Pop and The Stooges! Tudo isso em vinil e mais um monte de outros discos! Faz ideia de quanto tempo levei para conseguir tudo isso? De quanto isso me custou? A cada minuto que se passa esse prédio pode cair e tudo isso ser destruído! Você não tem coração? Agora cala essa boca e tira essa mala daqui do contrário não respondo por mim.

O bombeiro não ousa responder e obedece, retirando primeiro a mala do prédio. Em seguida sai a garota e por fim o herói. Chegando ao chão eles são conduzidos a um lugar seguro sob os gritos e aplausos dos presentes ali e flashes dos fotógrafos. Instantes depois o prédio começa a desabar enquanto João chora abraçando seus discos.

— Prometo nunca mais guardar vocês longe de mim de novo…

Na manhã seguinte, o ocorrido sai no jornal, logo abaixo do anúncio oficial do novo programa de TV do Surfista Bronzeado.

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