Liga de Heróis Juventude Brasileira – 1ª Temporada (Episódios 9 e 10)

Conto escrito por André Garcia

amdreh@gmail.com

EPISÓDIO 9

LIGA DA MALDADE: PROCESSO SELETIVO

Mateus é um jovem normal, exceto sua excepcional capacidade de enxergar no escuro. Graças a ela, Mateus ingressou na Liga de Heróis Juventude Brasileira, ficou entediado e saiu dela. Como única alternativa à Liga de Heróis, ele se inscreveu na Liga da Maldade Juventude Brasileira. Sua entrevista estava marcada para as 09:30 na Torre da Maldade. Mateus chegou pontualmente.

— Bom dia, pode se sentar. — Disse o sujeito de roupas pretas do outro lado de uma espaçosa mesa.

— Bom dia.

— Qual é seu nome?

— Mateus.

— Certo. Tem algum super poder?

— Sim, eu enxergo no escuro.

— Muito bom! Você tem um nome de vilão?

— Não.

— Ok. Vamos providenciar isso depois. O mais importante agora é o Teste da Maldade.

— Que diabos é isso?

— É um teste para descobrir se você é realmente mau. — Diz o sujeito, pegando um papel e um lápis. — Primeira pergunta: Você é mau?

— Não.

— Desculpa, não entendi…

— Não, eu não sou mau. Você é?

— Claro que sou! Eu esmago pintinhos, que nem o Kiss.

— O Kiss nunca fez isso.

— Fez sim.

— Nunca fez, isso foi um boato criado aqui mesmo no Brasil pelas pessoas que eram contra a realização do show deles no Maracanã em 1983.

— Fez sim.

— Tá bom, cara… Tá bom.

— Mas, se você não é mau, o que está fazendo aqui, então?

— Tentei entrar para a Liga de Heróis, mas não gostei.

— Interessante… — O sujeito faz algumas anotações e, então, continua. — O que é isso? — Pergunta ele, mostrando uma imagem de um ursinho peludo.

— É um ursinho.

— Um ursinho bonitinho?

— Um ursinho normal.

— Você sente vontade de brincar com ele?

— Não.

— Sente vontade de matá-lo?

— Não. Por que eu faria isso?

— Sente vontade de saltitar com ele por num belo bosque florido com a suave brisa da primavera batendo no seu rosto pela manhã?

— Não.

— Certo, certo… — O sujeito volta a fazer anotações e mostra outra imagem para ele. — E isso, o que é isso?

— Rorschach.

— O que?

— Rorschach. O teste psicológico projetivo desenvolvido pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach, que consiste em dar possíveis interpretações a dez placas com manchas de tinta simétricas.

O sujeito fica parado por alguns segundos, com a boca aberta, e, depois, diz:

— Bom, se você disser só o que vê na imagem já está bom.

— Eu vejo uma mancha de tinta simétrica, e você?

— Eu vejo a Pituxa.

— Quem?

— A Pituxa. — O sujeito respira fundo. — A cachorrinha que eu tinha quando era criança, o único ser nesse planeta que realmente amei, ela era a minha vida até que… — O sujeito enche os olhos de lágrimas, mas continua. — Até que um dia meu pai chegou e falou: “Essa máquina de fazer cocô só me dá prejuízo!”. Máquina de fazer cocô era a forma como ele se referia a ela. — As lágrimas, então, começam a cair. — E um dia eu voltei da escola e ela não estava lá… Nunca mais brinquei com ela ou a vi novamente… Desde então esse vazio ficou dentro de mim e não consegui preenchê-lo. Talvez nunca tenha realmente desejado preencher, com medo de ser deixado novamente…

— Viu só como é bom desabafar?

— Sim, muito obrigado… — Diz o sujeito, levantando-se e virando de costas. — Peraí! — Ele vira a cabeça rapidamente para o lado. — Sou eu quem está entrevistando aqui!

— Tanto faz…

O sujeito se senta, respira fundo, enxuga as lágrimas e continua:

— O que é isso?

— Uma foto de uma velhinha.

— Você sente vontade de ajudá-la a atravessar a rua?

— Depende. Se eu estiver com pressa, se estiver muito calor, se ela não for uma velhinha escrota, se do outro lado da rua for território de um país onde eu esteja sendo procurado pela polícia e tiver policiais do outro lado da rua…

— É… Isso até que é mau.

— Que seja.

— Acho que você tem potencial, agora só precisa de um nome de vilão. Você parece um cowboy… Então Kid, Kid é… Kid Malvadeza! O que achou?

— Uma bosta. Mas tanto faz… Só tem uma coisa…

— O quê?

— Eu não sou um cara mau.

— Você é.

— Não, eu não sou…

— Você é mau.

— Ok, tá bom, cara. Aliás, qual é seu nome de vilão?

— Eu sou O Sujeito.

EPISÓDIO 10

LIGA DA MALDADE: DIA DE TREINAMENTO

— Saudações, senhores. — Diz um homem alto com roupas pretas diante de uma espécie de sala de aula. — Meu nome é Capitão Maldade e eu serei o instrutor de vocês; minha meta é transformar vocês, escoteiros enrustidos, em caras maus.

Ele faz uma pausa, olha para os rostos de cada um dos presentes na sala e, então, continua:

— Fico feliz, quer dizer, satisfeito de ver tantos novos rostos por aqui. Vocês poderiam estar nas ruas ajudando velhinhas a atravessar a rua, poderiam estar tirando gatos de árvores e outras coisas escrotas, mas estão aqui. Meus parabéns. Agora vamos começar. Peguem papel e caneta. Primeira lição, os quatro mandamentos do mal. Primeiro mandamento: Se é bom, é ruim. Se é ruim, é bom. Segundo mandamento: Não gostar de coisas bonitinhas. Terceiro mandamento: Não ouvir Weezer. Vocês podem ouvir bandas como Pantera, por exemplo.

— Peraí. — Interrompe um dos alunos. — Mas o Pantera era glam, mau mesmo é o Guns n Roses.

Capitão Maldade caminha lentamente até o lado do aluno e, com um movimento rápido e repentino, dá um sonoro tapa na cara dele, dizendo:

— Quarto mandamento: Nunca fale mal do Pantera. — Capitão Maldade dá as costas e volta para seu lugar.

— Slash é mau. — Insiste o aluno.

— O quê?! — Capitão Maldade se vira rapidamente. — Atenção galera: Vaia pra ele!

De repente, toda a sala começa a vaiá-lo com um uníssono capaz de vibrar janelas, enquanto o aluno tentava, em vão, se justificar.

— Caalaadaaaaaaa! — Grita Capitão Maldade e toda a sala fica em silêncio. — Atenção, galera: Pescoção nele!

E, de repente, todos estão em volta dele como um formigueiro. Só é possível ver as mãos subindo e descendo e ouvir os estalos.

— Caalaadaaaaaaa! Acabou a bagunça, voltem todos para seus lugares.

Enquanto todos obedecem, o tal aluno insiste:

— Axl Rose é mau… — Diz ele, com a voz trêmula e à beira das lágrimas.

— Cala a boca, animal! — Grita Capitão Maldade. — Axl Rose não é mau, Axl Rose é uma bichona! Você acha a Carla Perez má?

— Não, claro que não.

— Então por que Axl Rose seria se ele usava as mesmas roupas que ela?

— Mas…

— CAAALAAA A BOOOCAAA!!! Levanta, vai pro canto da sala, ajoelha, põe as palmas das mãos na nuca com os dedos entrelaçados e canta “Detroit Rock City” dez vezes. E é bom que saiba a letra!

O aluno se levanta e lentamente faz o que foi mandado:

— I feel uptight when it´s saturday night…

— E faz o baixo. — Grita novamente o Capitão maldade. — Não estou ouvindo o baixo!

— Tunum num. Tururu tudanam. Nine o´clock radio is the only light…

— Agora, um pouco de aula de sobrevivência. Cada um de vocês recebeu um kit disfarce. Ele é usado para situações como: Tentou explodir uma bomba e ela não funcionou, a Liga de Heróis já foi chamada está a caminho. O que fazer? Vistam a fantasia de mendigo que está no kit, a camisa do Nirvana, a blusa de flanela e a calça jeans rasgada. Agora, vamos ter o intervalo. Depois disso, vamos ouvir Weezer e prestar atenção na reação um do outro para ver se tem algum maldito escoteiro enrustido aqui. E, também, trazer a versão inglesa do primeiro disco do The Clash em vinil para fazermos nossa oração. — Ele se vira para o aluno que está no canto da sala ajoelhado. — Não estou ouvindo você cantar!

— Get down everybody is gonna move their feet. Get up everybody is gonna leave their seats…

— Tá errado, animal! É get up primeiro depois é get down! — Berra Capitão Maldade — Isso é um esculacho… Qual é seu nome, infeliz?

— Meu nome é Robson.

— Robson? Aí galera, zoa ele!

— Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh — Gritam todos os alunos da sala ao mesmo tempo.

— Caladaaaaaaaaaaaa!!! — E todos ficam quietos imediatamente.

Capitão Maldade pega o rádio na cintura e fala:

— Zé Horror, na escuta? Sim, temos mais um babaca aqui que acha que pode ser um vilão. Vem aqui buscar ele e bota os cabritos pra mamar. E depois… — Ele faz uma pausa. — E depois coloca ele para ouvir um disco solo da Yoko Ono inteiro.

— Nããããooo!!!! Nãããoooo!!! — Grita Robson, desesperado.

FIM DA PRIMEIRA TEMPORADA

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