Liga de Heróis Juventude Brasileira – 2ª Temporada (Episódio 2 e 3)

Conto escrito por André Garcia

amdreh@gmail.com

EPISÓDIO 2

EGOMAN E THUNDERBOLT (12:20)

Ego Man e Thunderbolt se tornaram bons amigos desde que começaram a trabalhar juntos. Eles estão no topo de um prédio em silêncio de olho nas ruas com seus binóculos até que Ego Man diz:

— O que você achou da Beatriz?

— Ela é legal. — Responde Thunderbolt, distraidamente.

— Você gostou dela?

— Não. Não é que eu tenha desgostado, só não gostei também. Sou indiferente.

— Mas, então, você gostou dela, né?

— Não. Quer dizer, é sempre a mesma coisa: você arruma uma garota, ela só sai com você se for com uma amiga, eu preciso ir com você pra fazer companhia para a amiga dela…

— Mas você gostou.

— Pô, ela não gostou muito de mim não, cara.

— Gostou, sim.

— Não gostou, não.

— Gostou, sim.

— Pô, ela dormiu, cara! — Diz Thunderbolt, deixando os binóculos de lado e se virando para o Ego Man. — Uma garota sair com você e dormir não é um bom sinal.

— É, sim.

— Olha, vamos nos concentrar na vigília, não podemos nos distrair. Se a gente falhar em impedir esse encontro entre o Wes e o Fred, isso vai significar a volta do Limp Bizkit.

— Certo, certo.

Os dois voltam a olhar as ruas com os binóculos e ficam em silêncio. Instantes depois, Ego Man diz:

— Se você quiser, eu chamo ela pra sair com você de novo.

— Pra quê?

— Você gostou dela, ué.

— Eu não gostei. Quer dizer, eu gostei dela, mas… Porra, ela dormiu, cara!

— Ela não ter saído correndo como a Jackie já quer dizer algo, não é?

— Peraí, a Jackie não saiu correndo! Ela teve uma crise de depressão aguda seguida de choro compulsivo e foi para casa. Não foi culpa minha.

— Tá bom, tá bom… Nunca é culpa sua.

— O fato é que não quero sair com a Beatriz de novo.

 — Por que não?

— Já sei, eu entendi. Já entendi…

— Ahn?

— Você quer que eu queira.

— Como assim?

— Você quer me fazer querer sair com ela. Aposto que você quer ficar com a amiga gostosa dela de novo.

— A Paloma quer sair comigo de novo, mas vai levar a Beatriz e eu preciso de alguém para fazer companhia a ela. Mas isso não quer dizer nada.

— Sabia! Como você se sentiria se fosse eu saindo pra pegar uma gostosa e você tendo que aturar a amiga dela?

— Desde quando você pega alguma gostosa?

— Vamos prestar atenção na vigília e parar de falar bobeira. — Desconversa Thunderbolt.

— Certo.

Eles voltam a olhar nos binóculos e ficamem silêncio. Minutosdepois, Ego Man tosse e diz:

— Hoje, às 23h.

— O quê?

— Hoje, às 23h.

— Sim, o que é que tem?

— Nós vamos sair com a Paloma e a Beatriz.

— Você já marcou?

— Sim.

— Porra, você é foda!

— O que eu fiz?

— O que você fez? Você sempre faz isso. Agora eu vou ter que ficar a noite toda…

Um barulho de uma forte batida de carro o interrompe e faz com que eles voltem a prestar atenção em seus binóculos.

— Olha! Ali está o Wes Borland! — Diz Ego Man.

— Bem na hora.

— Solta um raio nele!

— Não… — Thunderbolt pensa por alguns instantes e diz: — Melhor não.

— Por quê? Você anda praticando bastante, agora você deve acertar o alvo.

— Sim, mas aí eu vou matar o cara.

— Ele merece, ele é do Limp Bizkit!

— Eu sei, mas é melhor a gente só seguir o plano.

— Eu sei, estava brincando.

Ego Man aperta um botão em seu comunicador de pulso e diz:

— Gato Mau para Veludo Subterrâneo. Gato Mau para Veludo Subterrâneo. Passar para a próxima fase.

— Entendido. — Diz uma voz no comunicador em resposta.

— Missão cumprida! — Diz Ego Man se levantando. — Agora está nas mãos dele. Vamos embora.

— Mas e então, onde você marcou esse encontro com as garotas? — Pergunta Thunderbolt, enquanto caminha com Ego Man até a porta que leva ao elevador.

— Na sua casa. Algum problema?

— Na minha casa?! Você marcou um encontro entre eu e uma garota com quem não quero sair, na minha casa e sem me avisar! Claro que tem problema! Vários!

Eles chegam ao elevador, apertam o botão e aguardam até que a porta se abrisse. Thunderbolt olha para Ego Man e pergunta:

— Algo mais que você não tenha me contado?

— Não. Quer dizer…

— Quer dizer o quê?

— Nada demais.

— Fala!

A porta do elevador se abre e eles entram.

— Só que eu vou precisar do seu quarto.

— O quê?!

— Eu prometi que ia fazer massagem nela.

— Você é foda, cara!

— O que você queria que eu fizesse? Dissesse que ia fazer massagem nela no sofá? — A porta do elevador se abre e eles saem. — Já tentou fazer massagem numa garota num sofá? Não dá, cara.

— Só estou dizendo que você não pode…

— Cara! Ouve o que você está dizendo! Será que você não consegue parar de reclamar e botar defeito em tudo? Eu arrumo uma mulher pra você e é assim que você me agradece?

— Eu não te pedi nada!

— Nunca vi uma pessoa egoísta como você. Será que não dá para parar de pensar só em você mesmo? O mundo não gira em sua volta!

Eles saem do prédio e começam a andar pela calçada, passando por Wes Borland com a perna quebrada sendo levado para uma ambulância numa maca.

— E então? — Thunderbolt quebra o silêncio. — Algo mais que eu precise saber?

— Não. — Ego Man faz uma pausa. — Mas já que tocou no assunto, será que você poderia ficar com a Beatriz na varanda?

— Como assim?

— Paloma fica com vergonha se tiver gente no cômodo ao lado, sabe, ouvindo… Eu falei pra ela que vocês iriam ficar na varanda.

— Porra, cara!

Os comunicadores de pulso dos dois tocam ao mesmo tempo. Eles olham um para o outro estranhando o fato, pois isso nunca havia acontecido antes. Eles aproximam o comunicador do ouvido e ouvem a mesma mensagem ao mesmo tempo:

— Aqui é o presidente. Temos um problema urgente. Preciso que todos vocês larguem o que quer que estejam fazendo e dirijam-se ao QG imediatamente.

Ego Man e Thunderbolt olham um para o outro e começam a correr enquanto Ego Man diz:

— Mas, aí… Tem como você dar uma limpada lá no seu quarto para essa noite?

EPISÓDIO 3

VIDENTE (12:20)

Vidente está em sua cama fazendo alguns minutos de meditação, até que abre os olhos e se recosta na cabeceira, pois sabe que será interrompido. Instantes depois, um caminhão passa com suas caixas de som tocando bem alto uma voz anasalada: “É quaaatro mini piiizzas, só paaaga três reais. É piiizza graaande, só paaaga cinco reais. Salgadiiinhos saborooosos, só paga cinco reais. Venha, meu senhor; venha, minha senhora, que o carro da promoção está passando na sua rua. É quaaatro mini piiizzas, só paaaga três reais…”.

O herói liga a televisão, mas sequer olha para ela, é só para abafar o som irritante do caminhão e diminuir um pouco a sensação de solidão. Depois ele pega de baixo da cama um bloco de papel e uma caneta, pois sabe que vai ter uma ideia. Instantes depois ele os larga no chão, porque sabe que a ideia não seria boa. Cada vez que ele antevê o que vai fazer, antevê também o que vai acontecer e, muitas vezes, acaba antevendo que não precisaria fazer o que iria. Esse é o motivo pelo qual ele passa tanto tempo quase imóvel.

De repente, Vidente antevê que uma transmissão invadiria sua televisão. Seu rosto inexpressivo assume um ar de surpresa, coisa que não acontece frequentemente. Ele desliga a TV, pois já sabia o que seria dito e, após alguns minutos deitado e imóvel, se levanta e caminha em direção à porta. No meio do caminho ele antevê que iria sair de casa sem levar o comunicador, então, volta, o coloca em seu pulso e diz:

— Pi-Pi.

Segundos depois, o comunicador emite um alerta sonoro e diz:

— Aqui é o presidente. Temos um problema urgente. Preciso que todos vocês…

— Já sei. — Diz o herói apertando um botão que interrompe a mensagem.


Capitão Marôla e Marolinha (12:20)

Em algum lugar da cidade há um misterioso galpão espaçoso, iluminado por apenas algumas lâmpadas de luz branca e fria, que mantém boa parte do lugar na penumbra. Nele há diversas pilhas de caixas de madeira e atrás de uma delas se escondem Capitão Marôla e seu fiel ajudante mirim, Marolinha, que estão prestes a intervirem num encontro de mafiosos.

— Marolinha, lembra do plano?

— Sim.

— Então, me diz qual é. Da outra vez, você esqueceu e eu ainda estou com os hematomas.

— Exatamente no segundo combinado eu apago as luzes e você aproveita o fator surpresa para derrubar os mafiosos.

— Isso aí! Gostei de ver! Segundo a planta do galpão a chave geral de energia fica ali. Você vai pra lá e eu procuro o melhor local para atacar.

Os dois se separam, andando furtivamente até suas posições. Quando ambos estão a postos, Capitão Marôla aciona o comunicador e pergunta a Marolinha:

— Achou a chave de energia?

— Sim.

— Está preparado para puxar a alavanca?

— Sim.

— Então vinte segundos após eu dizer “já”, você desliga a chave, entendido?

— Sim.

— Tem certeza?

— Sim.

— Certo… Já!

Capitão Marola espera exatos vinte segundos e salta de cima de uma das pilhas de caixas fazendo uma pose pomposa e gritando:

— A justiça chegou, seu bando de vermes imundos filhos duma… — Ele interrompe a frase quando se dá conta de que as luzes não foram apagadas.

Capitão Marôla se dá conta de que está bem no meio de uma roda de assassinos da máfia segurando porretes, correntes e bastões de beisebol. Ele olha para os criminosos, dá um sorriso, provavelmente o sorriso mais amarelo da história dos sorrisos amarelos, olha para as luzes e perde as esperanças de que elas apaguem a tempo de poupá-lo do seu destino cruel. Ele olha para os mafiosos de novo e seu sorriso se transforma numa careta enquanto seus olhos se enchem de lágrimas e ele diz com a voz trêmula:

— Porra, Marolinha…

Enquanto os assassinos da máfia saltam sobre ele, seu ajudante mirim está ao lado da chave de energia, falando ao celular:

— …Aí, depois disso tudo ela ainda queria que eu continuasse na festa. Eu falei pra ela que só ficaria se ela desse uma volta comigo. Ela olhou pra mim e falou assim… — Marolinha para e se dá conta de que deveria ter desligado a chave e que por isso os gritos que ele estava ouvindo deviam ser do seu tutor.  — Ih, caramba! Tenho que ir, depois a gente se fala, tchau.

Marolinha pensa em entrar na luta, mas desiste da ideia, pois não daria conta de enfrentar todos os bandidos. Então ele desliga a chave de energia e espera até que eles irem embora para só então ir a socorro do pobre herói.

— Capitão, você está bem?

— Ai… Dói… Dói tudo… Aiii…

Os comunicadores deles tocam ao mesmo tempo e eles recebem a mensagem:

— Aqui é o presidente. Temos um problema urgente. Preciso que todos vocês larguem o que quer que estejam fazendo e dirijam-se ao QG imediatamente.

— Vamos lá, Capitão! — Diz Marolinha se levantando, fazendo uma pose de prontidão e apontando em direção à saída do galpão.

— Espera… Espera uns 10 minutinhos pra ver se eu volto a sentir minhas pernas.

CONTINUA…

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