Liga de Heróis Juventude Brasileira – 2ª Temporada (Episódio 4 e 5)

Conto escrito por André Garcia

amdreh@gmail.com

EPISÓDIO 4

SACANAGEIRO (12:20)

Um ladrão procura um lugar onde possa contar os bens que havia conseguido após alguns roubos, mas quando menos espera, Sacanageiro, membro da Liga da Maldade, o agarra, puxa para um beco estreito e o joga contra a parede dizendo:

— Quieto. Se fizer barulho, estouro seus miolos. — Ele não possui uma arma, mas o ladrão não sabe disso.

— Peraí, cara! Peraí…

— Fala baixo!

— Tá bom. Olha, eu não fiz nada, policial.

— Policial?

— Você não é da polícia, não?

— Polícia? Isso é um assalto, cara!

— Mas eu não tenho nada.

— Eu vi todas as pessoas que você roubou. Pode passar essa mochila para cá e nada de tentar alguma gracinha.

— Toma, pode ficar com ela. Só me deixa ir, eu juro que nunca mais vou roubar ninguém.

— Não quero que pare de roubar, muito pelo contrário, você vai continuar roubando e a metade do que você conseguir vai ser meu. Todos os dias. Caso contrário, vou tomar tudo de você e ainda vou te dar uma lição. Estamos entendidos?

— Sim. — Responde o ladrão começando a suar frio.

— Certo. Mas preciso de um sinal da sua boa intenção.

— Como assim?

Sacanageiro pega uma caixa de fósforos vazia com fios colados e a coloca no bolso da frente da calça do ladrão.

— Isso é uma bomba.

— O quê?!

— Calma. Tudo o que você precisa fazer é roubar aquele posto de gasolina e trazer o dinheiro aqui para mim. Assim, eu desarmo a bomba e me certifico de que posso confiar em você. Entendido?

— Si-sim… — Diz o ladrão, com suor escorrendo na testa.

— Não precisa ficar nervoso, essa bomba não tem potência suficiente para te matar, se ela explodir vai só arrancar seu saco. Você tem namorada?

— Sim.

— Então é melhor não tentar tirar essa bomba do bolso, ela foi projetada para ser detonada por qualquer tentativa de violação e não quero que sua namorada fique com raiva de mim. Não se esqueça: eu estou com o detonador e vou estar te observando. Agora vai logo, não tenho o dia inteiro.

O ladrão responde com balançando a cabeça afirmativamente e anda com pressa até o posto de gasolina com seus batimentos cardíacos acelerados como nunca estiveram antes. O vilão explode numa gargalhada e vasculha a mochila para ver o que conseguiu, mas quando olha para o posto, vê o ladrão desmaiado lá dentro sendo socorrido.

O celular do Sacanageiro toca e ele atende:

— Alô.

— Sacanageiro. Aqui é o Sujeito.

— Fala aí, cara.

— Reunião urgente. Venha para a Torre da Maldade imediatamente. Largue tudo que estiver fazendo.

VOADOR (12:20)

Voador está saindo do consultório do doutor Luís Marques, o psiquiatra com quem ele vinha tratando seus traumas de infância. Após diversas sessões de terapia e medicamentos, ele acaba de receber alta, está finalmente curado de seu medo de voar mas decide manter isso em segredo para surpreender as pessoas em alguma ocasião especial.

Depois de receber uma notícia tão boa, Voador se sente bem como talvez nunca tenha se sentido antes, sua vida estaria perfeita se não fosse pelo efeito colateral dos remédios: a falta de memória. Há uma semana ele pegou emprestado com Thunderbolt o CD London Calling, do The Clash, mas dias depois não conseguia mais encontrá-lo em sua casa. Ele comprou outro para devolver no lugar do CD perdido como se nada tivesse acontecido, mas o perdeu no caminho de volta da loja. Há alguns dias ele atendeu um pedido de socorro de uma senhora que teve a bolsa roubada, conseguiu recuperar a bolsa, mas se esqueceu quem era a dona e teve deixá-la no Achados e Perdidos.

No entanto isso é um mero detalhe num momento tão especial. Ele anda pelas ruas sentindo a eletricidade das energias corretamente direcionadas correndo em suas veias. Agora que o dia que ele esperou por tanto tempo chegou, ele vai finalmente poder conseguir uma posição de destaque na Liga e deixar de ser um herói de meia tigela. Agora ele sabe que as pessoas são o que acreditam ser, o que se programam para ser. Ele passou a vida inteira acreditando ser um perdedor, o que o tornava um e, quanto mais ele perdia com isso, mais ele se convencia de que era mesmo um perdedor. Criando um circulo vicioso como uma viagem só de ida ao fundo do poço a bordo de um trem desgovernado.

O comunicador de pulso toca despertando Voador de seus pensamentos positivos. Ele aperta um botão e ouve a mensagem:

— Aqui é o presidente. Temos um problema urgente. Preciso que todos vocês larguem o que quer que estejam fazendo e dirijam-se ao QG imediatamente.

Voador respira fundo admirando o azul do céu, solta o ar com um sorriso e, então, começa a andar em direção ao QG ansioso por uma oportunidade de esfregar na cara do mundo que agora é capaz de voar. Dar a volta por cima pela primeira vez em sua vida.

EPISÓDIO 5

CAPITÃO SUPERSTAR (12:20)

— Isso é um esculacho! — Grita Capitão Superstar, batendo a palma da mão na mesa. — Você tem certeza?

— Sim. — Responde reservadamente seu empresário.

— Sétimo? Nunca cheguei tão baixo em popularidade. Precisamos fazer alguma coisa, minha carreira está indo por água abaixo! Eu preciso desse filme de qualquer jeito. Agora que o Surfista Bronzeado está filmando um, se eu não conseguir também, estou acabado. E meu site?

— Pouco mais de 100 acessos.

— Hoje?

— Esse mês.

— E os anúncios no site?

— Estão com uma média de 4 cliques por dia, sendo 3 deles o seu, o meu e o da sua mãe.

— E quanto isso dá?

— Uns 10 dólares por mês.

 — Mas, me diz…

O empresário fica em silêncio e Capitão Superstar, inquieto, repete mais alto:

— ME DIZ!

— Dizer o quê?

— O que é bom para a popularidade?

— Bem… Ajudante mirim, por exemplo.

— Isso! Boa ideia! Me arruma uns vinte!

— Você não pode ter tantos ajudantes mirins.

— Por que não?

— O sindicato dos ajudantes mirins só permite um por herói.

— Droga…. O que mais é bom para a popularidade?

— Deixa eu ver… Propaganda de bate-papo por telefone, banheira do Gugu, não pagar por programa com travestis…

Capitão Superstar fica imóvel, olhando inexpressivamente para seu empresário.

— Tá de sacanagem, né?

— Não. As projeções…

— Ah… Cala a boca.

— … recentes mostram…

— Cala a boca.

— … que as celebridades…

— Cala a boca.

— … que adotaram esse…

— Cala a boca.

— … modelo…

— Cala a boca.

— … de…

— Cala a boca

— … mar…

— Cala a boca.

—… ke…

— Cala a boca.

— … ting…

— Cala a boca.

— … c…

— Cala a boca.

O empresário fica em silêncio. Capitão Superstar respira fundo, abre os braços e pergunta:

— O que mais é bom para a popularidade? Deve ter algo que eu possa fazer.

— Grandes atos heroicos.

— Isso eu já faço todo dia.

— Digo grandes atos heroicos como impedir catástrofes e salvar o planeta.

— Pensei que estivesse falando de acenar para os fãs. Salvar o mundo é muito difícil. Se nem Bono Vox consegue, como eu vou conseguir?

— Bom, o Surfista Bronzeado…

— CALA A BOCA! Não quero ouvir esse nome! Mas me diz…

— O quê?

— Que horas eles marcaram de me dar uma resposta sobre o filme?

— 12h20.

— Estão atrasados.

— Mas só por alguns…

— Liga pra eles.

— Eles vão…

— LIGA PARA ELES!

— Certo. — O empresário pega o telefone e disca o número. — Alô. Isso, sou eu mesmo… Isso, isso. Estou ligando para saber a resposta sobre o filme do meu cliente. — Ele faz uma pausa. — Sim… Entendi. Certo, sem problemas. Bem, até a próxima, então. Tchau. — Ele respira fundo enquanto põe o telefone de volta no gancho.

Capitão Superstar salta da cadeira, agarra seu empresário pelos ombros e pergunta o sacudindo:

— E aí? O que ele falou? Hein? O que ele falou?

— É…  Ele…

— Quando começo a filmar?

— … disse que…

— Já decidiram o nome do filme?

— … no momento…

— Anda, fala logo!

— … não há…

— Hein? O que eles falaram?

— … possibilidade de…

— Fala logo, cara! Hein?

— … fazerem o filme.

— O quê? — Pergunta Capitão Superstar, atônito.

— Eles recusaram o filme.

— Não entendi.

— Recusaram o filme.

Capitão Superstar faz cara de quem se esforça pra entender algo que não faz sentido.

— Como assim?

— Recusaram o filme.

— Quando você diz que recusaram o filme, quer dizer que aprovaram e eu começo a filmar em breve?

— Infelizmente, não. Quer dizer que não vai haver filme.

Capitão Superstar fica aproximadamente 10 segundos olhando para o empresário e, então, diz:

— Não vai dizer que é brincadeira, não?

— Não.

— Pegadinha do Malandro?

— Não. É sério, infelizmente.

— Tem certeza?

— Sim.

— Liga pra eles de novo, você pode ter entendido errado.

— Não, tenho certeza que entendi certo.

— Então isso significa que não vai ter filme?

— Receio que sim.

Capitão Superstar solta os ombros do empresário, dá as costas e anda alguns passos lentamente, olhando para o chão.

— É isso? É assim que minha carreira vai acabar? — Pergunta com voz baixa e triste. — Eu sou um fracassado, é isso? Droga, se fosse para ser um fracassado, eu teria feito faculdade de informática ou escreveria contos. — Ele cai de joelhos e solta um longo e trêmulo suspiro.

O comunicador de pulso dele toca. Ele aperta o botão e recebe a mensagem:

— Aqui é o presidente. Temos um problema urgente. Preciso que todos vocês larguem o que quer que estejam fazendo e dirijam-se ao QG imediatamente.

Capitão Superstar sequer se move. O empresário anda até seu lado e diz:

— Capitão, vamos lá? — Não há resposta. — Capitão, precisamos ir, é urgente. O show tem que continuar. — O empresário ajuda-o a se levantar e, o leva lentamente em direção à porta, arrasado.

Advertisements