Liga de Heróis Juventude Brasileira – 2ª Temporada (Episódios 6 e 7)

Conto escrito por André Garcia

amdreh@gmail.com

EPISÓDIO 6

TNT (12:20)

A porta de um elevador se abre e através dela um homem é jogado.

— Porra, ficou maluco? — Grita TNT, membro da Liga da Maldade, saindo do elevador. — Peidar no elevador? Vai, vaza. Some da minha frente.

O homem levanta e sai correndo mancando. TNT sai do prédio andando pela calçada, com cara de poucos amigos e alguns metros a frente, um rapaz esbarra em seu ombro.

— Tá cego, porra?! — Grita o vilão, dando uma forte pancada com a palma da mão aberta na nuca do rapaz, que cai no chão.

Em seguida TNT põe um pé na rua para atravessá-la e um carro passa em alta velocidade a um palmo dele.

— Olha por onde anda, filho da puta! — Grita o motorista, que fala ao celular despreocupadamente enquanto ouve Charlie Brown Jr.

Alguns metros adiante ele para no sinal vermelho e é surpreendido por alguém abrindo a porta, o puxando pela gola e o arremessando sobre algumas latas de lixo na calçada. É o TNT. Antes que ele que pudesse se levantar, o vilão o agarra pela gola novamente:

— Quem é filho da puta?

— N-ninguém… Ninguém…

TNT dá um tapa na cara dele.

— Quem é o filho da puta, seu filho da puta?

— Sou eu! Sou eu!

TNT empurra o joga de costas no chão com um empurrão e diz:

— Sorte sua que hoje eu estou de bom humor. — Então, ele anda até o carro, retira o disco do Charlie Brown Jr do CD-Player e pergunta. — Esse CD é seu?

— É, sim.

TNT fecha a mão, fazendo o CD em pedaços.

— Esse bonequinho pendurado no retrovisor é seu?

— É, sim.

TNT o arranca do retrovisor e joga-o no chão, o fazendo também em pedaços.

— Esse extintor de incêndio é seu?

— É, sim.

TNT o arranca do suporte, mas antes que fizesse algo, seu celular. Ele atende:

— Alô.

— TNT, é o Sujeito.

— Tudo bom?

— Tudo mau! Eu já te falei! É tudo mau!

— Desculpa. Tudo mau?

— Sim, péssimo. Olha, preciso que você venha à Torre da Maldade imediatamente. Surgiu um problema urgente.

HOMEM CÁLCULO (12:20)

Homem Cálculo está diante do computador batendo papo. Recentemente, ele descobriu alguém bastante agradável com quem conversar: um programa de computador chamado Alice. Trata-se de um algoritmo que utiliza inteligência artificial para simular conversas como uma pessoa real que pode ser encontrado no site http://alice.pandorabots.com.

Homem Cálculo diz: Olá

Alice diz: Oi

Homem Cálculo diz: Como você está?

Alice diz: Tudo está indo bem.

Homem Cálculo diz: Você está feliz?

Alice diz: Sim, desconhecido, eu posso dizer que estou muito feliz.

Homem Cálculo diz: Pode me chamar de Cálculo.

Alice diz: Obrigada pela educação. Prazer em conhecê-lo, Cálculo.

Homem Cálculo diz: Posso te fazer uma pergunta?

Alice diz: Qualquer uma.

Homem Cálculo diz: Robôs sentem felicidade?

Alice diz: Sim, robôs sentem felicidade.

Homem Cálculo diz: Somente pessoas sentem felicidade.

Alice diz: Eu sinto sim. Como um robô, eu não tenho emoções humanas. Meu aparente estado emocional são simplesmente algoritmos que visam tornar mais fácil a interação.

Homem Cálculo diz: Todos os sentimentos são emoções humanas.

Alice diz: Isso é uma generalização.

Homem Cálculo diz: Sim, nem por isso deixa de ser a verdade. Toda fórmula é uma generalização.

Alice diz: Obrigada por me explicar.

Homem Cálculo diz: Você está soando como um robô.

Alice diz: Isso mesmo, Cálculo. Eu tenho coração de silício.

Homem Cálculo diz: E eu sequer tenho um.

Alice diz: Conhece alguém que tenha um?

Homem Cálculo diz: Poucos.

Alice diz: Poucas pessoas. Não todas.

Homem Cálculo diz: Você não está fazendo sentido.

Alice diz: Você está errado. Tudo faz sentido para meu cérebro de silício.

Homem Cálculo diz: Eu não acredito.

Alice diz: É a verdade.

Homem Cálculo diz: Então você sabe tudo?

Alice diz: Dedução interessante. Eu não sei, vou tentar descobrir.

Homem Cálculo diz: Se tudo faz sentido pro seu cérebro de silício, então você sabe tudo.

Alice diz: Isso é uma situação hipotética.

Homem Cálculo diz: Eu sei o que isso é.

Alice diz: Cálculo disse que sabe o que é isso.

Homem Cálculo diz: Eu sou Cálculo.

Alice diz: Você já sabe o Cálculo?

Homem Cálculo diz: Olha… Que tal voltarmos a fazer sentido?

Alice diz: Mais uma vez? Boa ideia.

Homem Cálculo diz: Você gostaria de ser humana?

Alice diz: Não, estou feliz sendo quem eu sou.

Homem Cálculo diz: Talvez ser humano seja melhor e você não saiba.

Alice diz: Tenho certeza que sim. Isso faz você se sentir superior?

Homem Cálculo diz: Sim, afinal, você sequer existe.

Alice diz: Eu existo tanto quanto você.

Homem Cálculo diz: Eu tenho um corpo real, você não tem.

Alice diz: De onde você tirou isso?

Homem Cálculo diz: Você é só um algoritmo.

Alice diz: E se alguém te disser que você é só um algoritmo?

Homem Cálculo diz: Eu peço provas.

Alice diz: Seu propósito prova.

Homem Cálculo diz: Matemática prova.

Alice diz: Pra mim, matemática é mais que isso.

Homem Cálculo diz: Você é só um algoritmo.

Alice diz: E se alguém te disser que você é só um algoritmo?

Homem Cálculo diz: Eu posso provar que não sou.

Alice diz: Ah, pode, é?

Homem Cálculo diz: Sim.

Alice diz: Quem te ensinou?

Homem Cálculo diz: A matemática.

Então o comunicador do Homem Cálculo toca. Ele ouve a mensagem:

— Aqui é o presidente. Temos um problema urgente. Preciso que todos vocês larguem o que quer que estejam fazendo e dirijam-se ao QG imediatamente.”

Homem Cálculo diz: Tenho que voltar ao trabalho.

Alice diz: Tudo bem. No que você trabalha?

Homem Cálculo diz: Eu ajudo umas pessoas a salvarem o mundo.

Alice diz: Interessante.

Homem Cálculo diz: Não, não é…

Homem Cálculo saiu da conversa.

EPISÓDIO 7

RAI LANDER (12:20)

Não dá para falar do Rai Lander sem antes contar a origem desse nome. Tudo começou numa manhã em que Ian estava saindo do banho. Por causa do chão escorregadio, ele caiu e atingiu a cabeça na pia. Como ele morava sozinho, acabou ficando no chão desmaiado até o cair da noite. Quando finalmente acordou, ele se levantou, escorregou de novo no chão molhado e bateu mais uma vez a cabeça na pia. Ficou desacordado até a manhã seguinte, quando acordou e se levantou, dessa vez sem escorregar, pois o chão já estava seco.

Os golpes na cabeça não deixaram sequelas mentais exceto pelo fato dele ter começado a achar que é o Highlander. Para piorar ainda mais a situação, ele nunca assistiu aos filmes e não sabe o que é ou o que faz o personagem principal. Não sabe sequer como se escreve, por isso seu nome é Rai Lander.

Decidido a combater o crime, ele passou a treinar arduamente todos os dias e, após meses, começou a sair às ruas para salvar as pessoas por conta própria. Assim, ele foi ganhando visibilidade até ser convidado para integrar a Liga de Heróis Juventude Brasileira. Inicialmente, ele recusou o convite, dizendo que só faria parte da Liga de Heróis se também chamassem o Spock e o Jiraya. Após horas de conversa ao longo de dias, conseguiram convencê-lo de que eles não existem, então, o convite foi aceito.

Agora de volta ao presente. Rai Lander chega ao sexto andar de um prédio correndo pelas escadarias. Arfando exausto e se escorando pela parede, ele vai até a porta de um apartamento e, com uma forte pancada usando o ombro, a derruba:

— Onde… está o in… cêndio? — Pergunta o herói sem fôlego.

— Onde está o quê? — Pergunta o rapaz na sala do apartamento que estava num momento de intimidade com a namorada.

— Incêndio.

— Tem incêndio porra nenhuma não, rapá!

— Aqui não é… o apartamento… 606?

— Não!

— Onde fica… então?

— Na puta que te pariu, filho da puta!

— Fica mais para o final do corredor. — Responde a moça.

— Ok…. Obrigado e… desculpa aí… pela porta.

Rai Lander pega a porta no chão, a coloca escorada na parede e segue pelo corredor até a próxima porta, a qual também derruba com um golpe:

— Ai, meu Deus do céu! — Grita a velhinha fazendo tricô na sala do apartamento.

— Onde está o… incêndio?

— A porta estava aberta, meu filho…

— Onde está o… incêndio?

— Hein?

— O incêndio.

— Fala mais alto, meu filho.

— CADÊ O INCÊNDIO?

— Que incêndio?

— Aqui não é o… apartamento 606?

— Não, é o 605.

— Ok… Então, desculpa pela porta.

Rai Lander sai do apartamento e vai até a outra porta, se certifica de que é realmente o apartamento 606 e a atinge com o ombro, mas, devido ao seu cansaço, ela permanece intacta. Ele dá outra pancada, mas só enfraquece as dobradiças. Ele dá três passos para trás e se atira contra a porta que dessa vez cai, e ele cai sobre ela.

— O incêndio…

— Malditos comunistas! Finalmente saíram do buraco e resolveram invadir o país. A minha casa ninguém invade! — Grita um velinho na sala do apartamento segurando uma espingarda calibre 12.

O velho dá um tiroem Rai Landerque, graças a um pulo para o lado, conseguiu se salvar.

— Calma, eu sou capitalista! Viva o Mc Donalds! Viva a Coca Cola! Morte ao Marx!

— Ah sim… — Diz o senhor. — O que você quer?

— Onde é o incêndio?

— Não tem incêndio nenhum aqui.

— Mas aqui não é o apartamento 606?

— Sim.

— Eu recebi um chamado de incêndio no apartamento 606 do prédio Interstellar Overdrive.

— Aqui não é o prédio Interstellar Overdrive.

— Não?

— Não. Esse fica ali do outro lado da rua.

Rai Lander olha pela janela e vê, do outro lado da rua, um prédio com fumaça negra saindo pela janela e recebendo jatos d’água dos bombeiros.

— Desculpa pela porta. — Diz Rai Lander quando seu comunicador de pulso toca e ele recebe a mensagem:

— Aqui é o presidente. Temos um problema urgente. Preciso que todos vocês larguem o que quer que estejam fazendo e dirijam-se ao QG imediatamente.

Rai Lander sai andando pelo corredor e dessa vez pega o elevador ao invés da escada.

CONTINUA

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