Liga de Heróis Juventude Brasileira – 2ª Temporada (Episódios 8 e 9)

EPISÓDIO 8

THE TETIVE (12:20)

The Tetive está num encontro com uma garota numa lanchonete. Embora o encontro tivesse acabado de começar, ele já tinha se arrependido da ideia.

— Você gosta de doces? — Pergunta ela.

— Sim.

— Gosta de pavê?

— Sim.

— Pavê ou pra comer? — A garota gargalha. — Eu sou muito doida, né?

The Tetive não responde. Só suspira e discretamente balança a cabeça negativamente.

— Você não tem namorada, né?

— Não.

— Por que?

— Porque não.

— Eu também não.

— Ok.

— Eu estou procurando alguém que goste de sair, se divertir, fazer amigos…

— Sair, se divertir e fazer amigos são coisas boas. Quem não gosta de coisas boas? Todo mundo gosta de sair, se divertir e fazer amigos.

— E procuro alguém que me corresponda, que goste de mim também. Pra mim cumplicidade é tudo.

— Isso não é cumplicidade, é reciprocidade.

— Como assim?

— Deixa pra lá…

The Tetive fica quieto, mas a garota volta a puxar assunto:

— Você gosta de música?

— Claro. Quem não gosta? Quando foi a última vez que conheceu alguém que não gostasse de ouvir música?

— Que estilo você ouve?

— Basicamente rock e você?

— Todos.

— Quem diz que gosta de todos os estilos de música é porque ouve todos por não realmente gostar de nenhum.

— Como assim?

— Esquece…

— Eu gosto de rock também. Só não gosto daquelas bandas pesadas.

— Que banda você gosta?

— Gosto muito de Queen. Sou muito fã.

— Prefere a fase dos anos 70 ou 80?

— Hein?

— Prefere discos como News of the World ou The Works?

— Não conheço muito bem os discos…

— Prefere músicas como Killer Queen ou Radio Ga Ga?

— Eu conheço as músicas, só que não sei os nomes… Mas eu amo Queen.

— É, deu pra notar…

— Pra mim Jimmy Page é insuperável.

— Quem?

— Jimmy Page.

— Achei que a gente estava falando do Queen.

— Sim!

— Jimmy Page é do Led Zeppelin.

— É mesmo… É que não conheço os membros das bandas pelo nome, sabe?

— O guitarrista do Queen é o Serguei.

— É mesmo! Tinha esquecido. — The Tetive não responde, só apoia os cotovelos na mesa e a testa nas mãos. — Eu adoro Guns n’ Roses. Você gosta?

— Cada molécula do meu corpo grita de ódio só de ouvir esse nome.

— Como assim?

— Não gosto da banda. Acho Axl irritante, Slash superestimado e o resto da banda medíocre.

— É mesmo.

— Como assim “é mesmo”? Você não disse que adora Guns n’ Roses?

— Sim.

— Então, como concorda comigo em odiar eles?

— Como assim?

— Deixa pra lá…

O herói volta a ficar quieto. Eles ficam em silêncio até que a garota diz:

— Caramba, como o lanche aqui demora pra chegar.

— Eu sei, também estou esperando.

— Me fala alguma coisa sobre você!

— O que quer saber?

— Qualquer coisa.

— Me pergunta alguma coisa.

— Você faz o que lá na Liga de Heróis?

— Meu nome é The Tetive.

— Eu perguntei o que você faz, não o seu nome. Seu nome eu sei, né? Alo-ooou!

— Sou um detetive.

— Que legal! Como é ser tão inteligente?

— É como ter audição super aguçada no país dos desafinados. E é como se você estivesse esfregando um garfo num prato.

— Como assim?

— Esquece…

— Gosta desse trabalho?

— O trabalho é ótimo. O problema é quando o expediente termina.

— Como assim?

— Será que preciso mesmo explicar tudo? Você não entendeu nada do que eu disse desde que começamos a conversar! É tão difícil assim entender o que eu digo?

— Creeedo! Que horrooor! Como você é grosso! Só porque você é um herói acha que pode tratar os outros assim? Vou embora. Tchau!

A garota se levanta e sai da lanchonete. Segundos depois a garçonete coloca na mesa a bandeja com dois sanduíches e duas latas de refrigerante. Antes que The Tetive chegasse a tocá-los, seu comunicador de pulso dele toca e ele ouve a mensagem:

— Aqui é o presidente. Temos um problema urgente. Preciso que todos vocês larguem o que quer que estejam fazendo e dirijam-se ao QG imediatamente.

O herói se levanta, põe uma nota de 20 reais sobre a mesa e pensa na mensagem enquanto anda até a saída.

KID MALVADEZA (12:20)

Kid Malvadeza, membro da Liga da Maldade, desde que se tornou um vilão, nunca soube o que fazer como um. Basicamente só ficava em casa e é o que está fazendo nesse momento. Ele está sentado do lado da janela ouvindo seu vizinho, um senhor de idade e extremamente caricato, falando ao telefone:

— É… Estou indo encontrar minha namorada. É… Vou encontrar a outra. Apesar de que essa é perigosa; estou com medo de ela acabar me levando para a justiça. Sabe, isso acontece muito hoje, as mulheres ficam com você só para poder tirar tudo de você. Você arruma a casa dela, compra as coisas pra ela e, depois, ela diz: “Assim não dá, você é uma coisa, eu sou outra…”, “você chega muito tarde em casa…”. Mulheres são assim, tem mulher que é o capeta em pessoa, dá uns dois gritos com você e você chega até a tremer. Que nem uma namorada que eu tive…

Nesse momento um carro passa anunciando em suas caixas de som a venda de pizzas, mini pizzas e salgadinhos, abafando a voz do senhor. Quando o carro passa, Kid Malvadeza volta a ouvir seu vizinho:

— Um dia, descobri que ela tinha sido mordida por um cachorro doido quando tinha cinco anos e só tomou duas ou três vacinas. Aí ela ficava assim quando era noite de lua cheia. Entendeu? Por isso ela era brava, tinha dia que ela gritava e brigava com todo mundo. Até para cima do pai ela partia Você conhece a história da pessoa e entende como ela é. Sabe, muitas pessoas por aí têm problemas psicológicos, são…

O celular de Kid Malvadeza toca e ele atende:

— Alô.

— Kid Malvadeza?

— Sim.

— Olha só, houve um problema urgente, venha para cá agora.

****

EPISÓDIO 9

FRIO (12:20)

Frio está andando numa calçada e para na faixa de pedestres. Enquanto aguarda o sinal verde para atravessar, ouve alguém dizer:

— Me dá um dinheiro aí.

Ele se vira e vê um homem usando roupas velhas e óculos escuros de pé ao lado de um chapéu com algumas notas e moedas.

— Você é cego?

— Sim.

— Então como sabia que eu estava aqui?

— Ouvi seus passos.

— Mesmo com todos esses carros passando?

— A perda um sentido aguça os outros. Não está acreditando em mim?

— Qualquer um pode botar um par de óculos escuros e ficar pedindo dinheiro.

— Acha que eu gosto de ficar em pé aqui o dia inteiro pedindo dinheiro?

— Como vou saber? Não te conheço.

— Vai me dar um trocado ou não?

— Não tenho.

— Você não me parece do tipo que não tem nem 50 centavos.

— Como sabe se é cego?

— Pelo jeito como você fala.

— Isso não tem nada a ver.

— Tem sim.

— Não faz sentido você saber que sou um herói só pelo jeito que falo.

— Não falei que você era um herói, falei que você tinha dinheiro. Já que você é um herói, então tem a obrigação de me ajudar.

— Está precisando de ajuda?

— Sim.

— Você não parece estar em perigo.

— Estou falando de ajudar me dando um trocado.

— Só por que sou herói tenho que te dar dinheiro?

— Eu sou cego!

— E o que eu tenho a ver com isso?

— Eu sou cego, passo necessidade e você é um herói, tem a obrigação de me ajudar!

— Se você estiver pegando fogo eu tenho a obrigação de apagar, mas não tenho obrigação de dar dinheiro pra ninguém. Sou um herói, não o Silvio Santos. Sem contar que nem sei se você é realmente cego.

— É claro que sou!

— Pode me provar isso?

— É… Acho que não…

— Até onde sei você pode ser um estelionatário, ou pior, um vilão.

— Vilão? Eu? Que absurdo!

— Nunca te vi por aqui antes.

— Eu estou cada dia num lugar.

— Nada mal pra um cego, hein.

— As pessoas me ajudam, ao contrário de você!

— Coloca as mãos na parede.

— Pra quê?

— Vou te revistar.

— Que absurdo!

— Você é muito suspeito, vou te revistar.

Nesse momento o comunicador de pulso do herói toca e ele recebe a mensagem:

— Aqui é o presidente. Temos um problema urgente. Preciso que todos vocês larguem o que quer que estejam fazendo e dirijam-se ao QG imediatamente.

— Dessa vez você deu sorte. — Diz Frio dando as costas para o cego e caminhando em direção ao QG.

 

GATO PRETO (12:20)

Gato Preto está encostado na parede distraído, aguardando um contato quando um carro estaciona bem na sua frente. De lá saem três adolescentes que abrem as portas e o porta mala e colocam funk para tocar no volume máximo. Cada batida da música faz o peito o herói tremer por dentro. Enquanto os adolescentes dançam, Gato Preto anda lentamente até bem perto do carro, se abaixa fingindo que está amarrando os cadarços e, então, silêncio. Ele se levanta e retorna a seu posto enquanto os adolescentes ficam tentando entender o que aconteceu.

— Caraca aí Vinicius, acho que o som queimou!

— Mas é novo, meu pai comprou anteontem.

— Tô ligado. Que azar, hein.

— Tudo bem, depois ele compra outro. Ô Lucas, coloca um proibidão no celular aí!

Os adolescentes voltam a dançar, dessa vez ao som do funk distorcido pelos auto falantes de baixa potência do celular no volume máximo. Gato Preto vai até eles e pergunta:

— Podem me informar que horas são?

— 12h25. — Responde o rapaz que chegou dirigindo o carro.

— E que dia é hoje?

— Hoje é dia…

Um carro em alta velocidade bate no veículo do pai do rapaz, destruindo sua traseira e o chocando contra a traseira do carro que estava estacionado a frente.

— Caramba, meu pai vai me matar! Que azar! — Diz o rapaz, começando a chorar.

Gato Preto é o herói mais obscuro da Liga de Heróis, muitos nem sabem de sua existência. Seu poder é dar azar a quem está perto dele. É só chegar perto de uma pessoa que alguma coisa ruim e improvável acontece com ela.

Assim que o herói se encosta novamente na parede, seu comunicador de pulso toca e ele ouve:

— Gato Mau para veludo subterrâneo. Gato Mau para Veludo Subterrâneo. Passar para a próxima fase. — Era a mensagem que ele estava esperando.

— Entendido. — Sem que ele perceba, seu comunicador desliga por falta de carga na bateria logo em seguida.

Gato Preto sabe que aquilo significa a chegada de Wes Borland, ele o localiza e começa a andar ao seu lado:

— Desculpa incomodar, mas acho que te conheço de algum lugar.

Wes dá um sorriso de satisfação e responde:

— Bem, é que eu sou o Wes Borland do Limp Bizkit. Você não deve ter me reconhecido porque eu usava maquiagem nos shows e…

Antes que pudesse terminar a frase, Wes Borland tropeça num buraco na calçada, seu pé fica preso e ele cai, quebrando a perna. Gato Preto continua em frente e vai andando tranquilamente até sua casa. Como seu comunicador de pulso não está ligado, ele não recebe a mensagem do presidente sobre a reunião.

Anúncios