Liga de Heróis Juventude Brasileira – 2ª Temporada (Episódios 10 e 11)

Conto escrito por André Garcia

amdreh@gmail.com

EPISÓDIO 10

REUNIÃO LIGA DE HERÓIS JUVENTUDE BRASILEIRA (13:00)

Todos os heróis, exceto Gato Preto, estão acomodados no auditório do QG da Liga quando o telão se ilumina e nele aparece o Presidente da República:

— Boa tarde, estimados heróis. É uma honra vê-los reunidos, embora sob circunstância tão infeliz. Não sei se estão cientes, mas mais cedo uma transmissão invadiu todos os televisores em todo o mundo e nela dois extraterrestres ameaçaram explodir nosso planeta daqui uma hora. Cabe a vocês derrotá-los e impedir que isso aconteça.

Após um curto silêncio, o presidente continua.

— Um de vocês vai ser nomeado o líder da equipe, o qual vai receber de mim autonomia ilimitada para coordenar essa missão. O escolhido foi o Surfista Bronzeado. — Capitão Superstar desvia o olhar do telão com desgosto. — Mas ele está em outra cidade trabalhando na gravação do seu filme e não é possível ele chegar a tempo da batalha. Sendo assim, o escolhido para liderar a Liga de Heróis Juventude Brasileira é o Capitão Superstar. Não vou tomar o tempo de vocês, sei que há muitos preparativos a serem feitos. Boa sorte a todos e não se esqueçam de que a Terra conta com vocês. — O telão se apaga.

Alguns segundos se passam e Capitão Superstar continua com sua expressão de desânimo. Quando ele finalmente se dá conta do que foi dito pelo Presidente, se levanta e abre um grande sorriso, pois essa é sua grande chance de reerguer sua popularidade. O herói começa a caminhar em direção ao púlpito à frente do auditório eufórico:

— Eu sabia! Eu sou o melhor! Muitos acharam que eu estava arruinado, que faria vigílias idiotas como Ego Man e Thunderbolt ou viraria um fracassado como o Voador, mas deram mal! Sou melhor que o babaca do Surfista Bronzeado e que os sociopatas arrogantes do Homem Cálculo, do Vidente e do The Tetive que não servem para nada. Em momento algum acreditei estar destinado a ser um heroizinho de terceira como o Capitão Marôla, ser um inútil como o Frio, um Zé Ninguém como o Gato Preto, um retardado como o Rai Lander, um… Opa, esqueci que vocês estavam aí. Foi mal. Estava só pensando alto.

Capitão Superstar chega ao púlpito, bate levemente com o dedo no microfone duas vezes e verifica que ele está ligado:

— É… Como todos sabem agora eu sou o líder e… É… A gente… Deixa eu ver… É… A primeira medida que tomo com a autonomia ilimitada que me foi concedida pelo Presidente é passá-la para meu empresário, que a partir desse momento tem autonomia ilimitada do Presidente. — Diz o herói chamando seu empresário com gestos apressados.

ENQUANTO ISSO NA REUNIÃO DA LIGA DA MALDADE

TNT, Sujeito e Sacanageiro já estão no QG do Mal quando Kid Malvadeza chega.

— Ola. Desculpa pela demora, o ônibus atrasou. Mas pelo visto ainda falta muita gente chegar.

— Não. — Responde Sujeito.

— Só tem quatro de nós aqui. Cadê os outros?

— Mandei todo mundo embora.

— Quando?

— De manhã.

— Mas por quê?

— Porque eu sou mau!

— Mas, e aí? — Diz Sacanageiro, reclinado na cadeira, com as mãos na nuca e os pés sobre a mesa. — Qual é a grande urgência?

— Não sei se vocês sabem, mas hoje todas as televisões do mundo foram invadidas por uma transmissão de uns alienígenas falando que vão explodir a Terra.

Sujeito olha em silêncio cada um dos vilões ali presentes por alguns instantes, depois bate a palma da mão na mesa e grita:

— Droga! Vocês ouviram o que acabei de dizer? Eles vão destruir o planeta! Destruir o planeta! Vocês fazem ideia do quanto isso é mau? Eles estão fazendo a gente parecer um bando de meninas brincando de amarelinha! Não podemos permitir isso! Vocês vão ter que ir na arena Richard Baker e ajudar os pela sacos da Liga de Heróis a derrotarem eles.

— Nós?  — Pergunta Kid Malvadeza. — E você vai fazer o quê?

— Vou ficar aqui porque eu acabei de comprar Fifa 13, quer dizer, dar um mal jeito na coluna. Mas vocês vão representar a Liga da Maldade e estou contando com vocês! Vamos mandar aqueles alienígenas de volta para o planeta de onde vieram com o rabo entre as pernas e mostrar pra todo o universo que ninguém é pior do que a Liga da Maldade! Alguma dúvida?

— Eu. — Responde Sacanageiro.

— Pode falar.

— Você tem 20 reais para me emprestar?

— Claro… — Sujeito põe a mão no bolso e puxa duas notas de 10 reais. — Mas, espera aí! Você vai me pagar?

— Lógico! Amanhã eu te pago.

— Semana passada você pegou 20 reais comigo e não me pagou.

— Amanhã pago os 40.

— Então tá. Toma. TNT?

— O quê?

— Você não fala nada?

— Não.

EPISÓDIO 11

DE VOLTA A REUNIÃO LIGA DE HERÓIS JUVENTUDE BRASILEIRA (13:09)

Capitão Superstar se afasta do microfone dando lugar a seu empresário, que anda até o púlpito, pensa por alguns instantes e diz:

— Precisamos de um plano bem simples e funcional devido à falta de tempo hábil para um planejamento mais elaborado. The Tetive, você consegue pensar em algo?

— O plano mais simples e funcional que consigo pensar agora é colocar o Gato Preto na nave deles. Se a nave não funcionar, eles não vão poder sair da Terra e obviamente não vão detonar a bomba. Podemos ganhar um tempo precioso com isso.

— Isso teria 93,7% de chance de funcionar. — Adiciona Homem Cálculo. — E 79,9% ele se ficar do lado de fora da nave.

— Me parece o plano perfeito em vista das circunstâncias e diante da análise do Homem Cálculo. Talvez com isso a gente ganhe tempo o bastante para o Surfista Bronzeado chegar.

— FODA-SE O SURFISTA BRONZEADO! — Grita Capitão Superstar. — Ops, pensei alto de novo, né?

— Onde está o Gato Preto? — Pergunta o empresário e todos os heróis começam a olhar para os lados o procurando.

Vidente levanta a mão e diz:

— Thunderbolt vai ligar para o celular dele e descobrir que ele está em casa porque o comunicador descarregou antes dele receber o aviso sobre essa reunião.

Thunderbolt sorri sem graça enquanto aperta um botão no celular e encerra a chamada antes que Gato Preto atendesse.

— Não podemos perder tempo. Vou providenciar um ônibus para levar todos os heróis de campo até a arena o mais rápido possível. Eu vou ficar aqui no QG com The Tetive, Homem Cálculo e Vidente para tentarmos elaborar outro plano mais consistente. Thunderbolt, você liga para o Gato Preto e pede para ele não sair de casa, vou providenciar um carro para Voador ir até lá buscá-lo. Sabe onde fica a casa dele, Voador?

Voador, imerso em pensamentos, sequer ouvia o que estava sendo dito. O herói estava se imaginando voando diante de toda a arena, salvando o mundo e sendo admirado e aplaudido por todos.

— VOADOR! — Grita o empresário no microfone e ele pula na cadeira com o susto que leva. — O endereço é rua Arnaldo Baptista número 22, você vai para lá assim que o carro chegar.

Voador concorda confuso acenando com a cabeça.

— É isso, pessoal. Nunca antes na história desse planeta houve uma batalha tão decisiva quanto essa. Não se esqueçam da responsabilidade que cada um de vocês carrega. Desejo boa sorte a todos nós.

— Já acabou? — Pergunta Capitão Superstar no ouvido do seu empresário.

— Sim.

— Então arruma lá o ônibus e passa a liderança da Liga e a autonomia ilimitada do presidente para mim de novo. Aliás, será que dá tempo para mandar pintar minha foto no ônibus?

VOADOR E GATO PRETO (13:43)

Voador chega de carro ao endereço que lhe foi dado no QG da Liga e só então se dá conta de que não sabe quem tem que buscar. Ele sente medo, mas não entende o motivo até que o portão se abre e ele vê o Gato Preto: ir de carro com ele até a arena significaria morte certa.

Gato Preto acena sorrindo e, quando vai abrir a porta do carro, Voador rapidamente a tranca abaixando o pino e sai do veículo imediatamente.

— Por que trancou a porta?

— Você não pode entrar!

— Por que não?

Voador vê a expressão de seu colega e fica com pena. Ele sabe que Gato Preto não pode ter amigos por causa de seu poder e, por isso, passou toda sua vida sozinho e rejeitado. O bondoso herói decide não magoá-lo com a verdade e diz:

— É… Tem… Uma… Aranha. Isso! Tem uma aranha lá dentro!

— Aranha? — Gato Preto sorri aliviado por não ter sido por causa dele. — Deixa que eu mato!

— Não! Quer dizer… Não é uma aranha qualquer, é uma aranha enorme, uma senhora aranha! É uma aranha muito sinistra!

— Tudo bem, eu pego minha raquete de tênis e mato.

— Não! É que… São duas aranhas, na verdade.

— Eu tenho duas raquetes, eu mato uma e você mata a outra.

— É… São duas aranhas só no banco da frente, ainda tem mais um monte no banco de trás.

— Meu vizinho aqui do lado é dedetizador, ele resolve isso rapidinho.

— Mas… É… E o que ele vai fazer com os fantasmas que estão lá dentro?

— Tem fantasma no carro?

— Claro! Esse carro é assombrado, cara. Tá cheio de fantasma lá dentro, só fantasmão sinistro!

— Sério?

— Seríssimo!

— Então, o que a gente faz agora?

— Melhor a gente ir andando.

— Mas não vamos nos atrasar?

— Não tem outro jeito. Mas vamos logo, não podemos perder tempo. Nós temos que… — Antes do Voador terminar a frase, o galho da árvore em que ele está embaixo quebra e cai em sua cabeça.

— Voador! Você está bem? — Diz Gato Preto indo a seu socorro.

— Estou bem, mas sai de perto de mim! — Responde Voador com raiva por causa da pancada, mas se arrepende, pois sabe que o azarado herói não teve culpa alguma. — É… Não fica perto de mim se não pode cair outro galho e acertar você também. Eu estou bem, foi só um susto, agora vamos logo.

Voador continua a andar e se esforça para parecer calmo, mesmo estando tenso como nunca esteve antes.

— E aí, essa ameaça é séria mesmo? — Pergunta Gato Preto.

— Sim.

— São alienígenas, né?

Ao invés de responder, Voador se joga para o lado e um piano cai de um prédio no lugar da calçada onde ele estava.

— Voador! Você está bem?

— E-eu est-t-to-tou b-be-bem. Estou b-bem… Mas vamos lá, não podemos perder tempo.

Eles voltam a andar.

— Você está legal mesmo?

— Sim, estou ótimo.

Voador, embora esteja em pânico e tentando olhar para todas as direções ao mesmo tempo, continua tentando parecer calmo.

— A arena é longe daqui?

— Mais ou menos uma hora.

— Tão longe assim?

— Sim.

Gato Preto insiste em tentar puxar assunto, pois está contente por ter companhia pela primeira vez em muito tempo:

— Você ouve Secos e Molhados?

— Não.

Voador ouve Secos e Molhados, mas negou para acabar com o assunto na esperança de que Gato Preto desse menos azar quieto. Em outra tentativa de diminuir o efeito de seu poder, Voador tenta acelerar o passo e se distanciar discretamente dele. Quando acha que conseguiu, um bueiro ao lado da calçada explode e o joga contra a parede.

— Voador! Você está bem?

Ainda no chão o herói lembra que ainda falta mais de meia hora para chegarem à arena e sente vontade de chorar.

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